Quando ouvimos falar sobre os avanços científicos ao longo da História, nossa tendência é imaginar que as coisas tenham se dado de maneira organizada e planejada. Entretanto, na verdade, muitas descobertas ocorreram de modo inusitado e totalmente inesperado. Um exemplo claro e ainda bem pouco difundido disso envolve Henrietta Lacks.

Pois vamos contar um pouquinho do que aconteceu. Em 1951, ela deu entrada no Johns Hopkins Hospital com fortes dores abdominais e foi atendida por um médico que diagnosticou uma forma bastante agressiva de câncer do colo uterino. Após coletar suas células para estudá-las, ele percebeu algo um tanto estranho: depois de certo número de divisões, elas não morriam como as demais no laboratório. Na verdade, as células de Henrietta nunca morriam.

E agora, o que fazer?

Diante de tamanha surpresa e, por ser uma época em que não havia qualquer regulamentação a respeito de coletas de células, mesmo sem consultá-la o médico então retirou um pedaço de seu tumor e o encaminhou para um grupo de cientistas que vinham tentando, porém ainda sem sucesso, cultivar tecidos in vitro. Desse modo, ela se tornou doadora involuntária de células que revolucionaram a medicina.

Mesmo após o óbito de Henrietta, as chamadas células HeLa continuaram sendo cultivadas e distribuídas para vários laboratórios em todo o mundo. Felizmente, com o tempo, os resultados começaram a aparecer: o primeiro foi a vacina contra a poliomielite, desenvolvida por Jonas Salk em 1952, que já evitou cerca de 650 mil mortes e 13 milhões de casos de paralisia desde 1988.

Mas não pense, caro leitor, que parou por aí! As células HeLa foram a base para o desenvolvimento do campo da virologia, e sua contribuição para a medicina moderna vai além das vacinas; elas possibilitaram estudos referentes a câncer, HIV, genoma humano, tuberculose, HPV, doença de Parkinson, fertilização in vitro e até cosméticos!

Para entender um pouco mais como tudo funciona, veja o vídeo abaixo:

E quem foi Henrietta Lacks?

Considerando sua importância para os rumos da medicina mundial, nada mais justo do que conhecer um pouco sobre sua vida. Ela nasceu em 1920, na Virginia e, na adolescência, se envolveu com seu primo, David, com quem se casou e teve cinco filhos. Descendente de escravos e lavradora de tabaco, no sul dos Estados Unidos, Henrietta infelizmente foi diagnosticada com câncer do colo uterino e faleceu aos 31 anos, em decorrência da doença.

A jornalista Rebecca Skloot se encantou tanto com a história envolvendo as células imortais de Henrietta, durante as aulas de Biologia no colégio, que anos mais tarde se dedicou a investigar mais detalhes sobre a vida dela. O resultado disso pode ser encontrado no livro “The Immortal Life of Henrietta Lacks” (em tradução livre, “A vida imortal de Henrietta Lacks”), no qual ela conta como se deu a descoberta e a coleta das incríveis células HeLa e discorre sobre o impacto delas tanto na medicina moderna quanto na família de Lacks. Se você quiser saber mais, confira uma entrevista de Rebecca (em inglês) neste link.

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