Você alguma vez, enquanto apreciava o céu noturno, chegou a se perguntar sobre a dimensão do Universo? Para que você tenha uma ideia, segundo Tim Urban do portal Wait But Why, quando olhar para o firmamento em uma noite especialmente clara, se você tiver paciência para contar pontinhos, poderá distinguir cerca de 2,5 mil estrelas.

E todos esses pontinhos brilhantes que vemos são apenas os nossos vizinhos mais próximos — e compõem apenas uma minúscula fração da nossa galáxia. Aliás, quase todas essas estrelas se encontram a menos de mil anos-luz aqui da Terra, o que significa que o que realmente vemos quando olhamos para o céu é mais ou menos isto:

Você se sentiu pequeno? Calma... você vai se sentir ainda menor! A estimativa é de que só a Via Láctea contenha entre 100 e 400 bilhões de estrelas, e esse também é o número estimado de galáxias que existem no Universo observável, que tem 90 bilhões de anos-luz de diâmetro! Pois, somando tudo isso, chegamos a um resultado de algo em torno de 1022 a 1024 estrelas no cosmos — ou cerca de 10 mil estrelas para cada grão de areia que há na face da Terra.

Estimativas

De acordo com Tim, existe um consenso entre os cientistas de que entre 5% e 20% de todas essas estrelas são semelhantes ao nosso Sol. Pois, fazendo um cálculo conservador — considerando 5% de sóis e 1022 como sendo o nosso número total de estrelas — chegamos à estimativa de que existem 500 quintilhões de astros do tipo solar por aí.

Os cientistas também acreditam que entre 20% e 50% dessas estrelas poderiam ter planetas parecidos com a Terra orbitando ao seu redor, ou seja, mundos com temperatura e condições que permitissem a existência de água líquida e que, potencialmente, pudessem abrigar formas de vida. Assim, mais uma vez considerando os dados mais conservadores, podemos presumir que há um planeta habitável orbitando cerca de 1% das estrelas do Universo.

Isso significa que podem existir 100 quintilhões de mundos como o nosso por aí — ou, voltando à analogia dos grãos de areia, 100 planetas para cada grão que há na Terra! Com esse panorama em mente, é praticamente impossível não pensar na possibilidade de que não estamos sozinhos no Universo, você não acha? Pois vamos continuar com as especulações.

Especulações

Então, imagine que após bilhões de anos de existência, 1% desses planetas semelhantes ao nosso — ou o equivalente ao número de grãos de areia da Terra — desenvolve algum tipo de vida, e que, desses, apenas 1% dessas formas de vida avançam até alcançar um nível de inteligência como o nosso.

Dessa forma, deveríamos ter 10 quadrilhões de civilizações inteligentes no Universo observável. E, considerando — conservadoramente — que a Via Láctea tem 100 bilhões de estrelas e um bilhão de planetas habitáveis, então nossa galáxia deveria abrigar... umas 100 mil civilizações inteligentes.

O mais curioso, segundo Tim, é que, comparado à idade do Universo, o nosso Sol é apenas um menino, e existem estrelas muito mais antigas, orbitadas por planetas como o nosso — só que bem mais velhos. Isso deveria ter dado tempo de sobra para que civilizações muito mais avançadas do que a nossa tivessem se desenvolvido, não é mesmo?

Civilizações

Vamos imaginar o seguinte: comparando a Terra, com seus 4,5 bilhões de anos, com um planeta hipotético com 8 bilhões, se esse mundo tiver uma história parecida com a nossa, do Big Bang até agora, veja em que ponto de desenvolvimento sua civilização estaria:

Agora, imagine isto: se as viagens no tempo fossem possíveis, pense no choque que uma pessoa da era medieval sofreria se ela fosse transportada para a nossa época. Se tanta coisa mudou em mil anos de História, já pensou em como seria se deparar com uma civilização inteligente com milhões de anos de vantagem com respeito à nossa? Não seria muito supor que essa sociedade seria capaz de fazer viagens interplanetárias ou, ainda, de colonizar a nossa galáxia.

Pois, segundo Tim, inventaram algo chamado Escala de Kardashev — que reúne civilizações inteligentes em basicamente três categorias (I, II e III) para facilitar as nossas vidas. Assim, uma civilização do tipo I seria aquela capaz de usar toda a energia disponível em seu planeta, e nós, terráqueos, nem sequer chegamos a conquistar esse patamar ainda.

Uma civilização do tipo II não só seria capaz de aproveitar toda a energia do planeta, como teria a habilidade de usufruir da energia de sua estrela. Já uma civilização do tipo III seria aquela capaz de controlar toda a galáxia e aniquilar os outros dois tipos se quisesse. Em outras palavras, nenhum mundo gostaria de ter o azar de tropeçar com esse pessoal aí!

Paradoxo de Fermi

Mas, voltando às especulações, se apenas 1% da vida inteligente sobrevivesse o tempo necessário para alcançar o nível de desenvolvimento do tipo III, só na nossa galáxia deveriam existir mil sociedades desse tipo. E, considerando o poder que essas civilizações teriam, sua presença certamente seria notada.

No entanto, apesar de todo mundo já ter ouvido histórias de supostos contatos entre terráqueos e alienígenas, por mais intrigantes que eles sejam, a verdade é que nenhum desses encontros jamais foi comprovado. Nem mesmo o pessoal do SETI — organização que busca sinais de vida extraterrestre — detectou qualquer sinal com seus diversos radiotelescópios, seja de rádio, laser ou de qualquer outro tipo. Nunca. Então, cadê todo mundo?

Nós aqui do Mega Curioso já falamos brevemente a respeito do Paradoxo de Fermi, que tenta explicar a razão de não termos contatado seres alienígenas ainda, apesar da incontável quantidade de planetas potencialmente habitáveis que existem no Universo. Pois as possíveis respostas para esse paradoxo são fascinantes.

O grande filtro

Um grupo de explicações se baseia na teoria de que não encontramos qualquer indício da presença das civilizações do tipo II e III simplesmente porque elas não existem. Afinal, as estimativas apontam que há milhares ou milhões de sociedades superavançadas, então, pelo menos uma deveria ter estabelecido contato conosco. E, se isso não aconteceu ainda, deve existir um motivo — e os cientistas se referem a esse “motivo” como o grande filtro.

O grande filtro estabelece que, em algum momento entre a origem da vida e o desenvolvimento do tipo III, há uma espécie de obstáculo que freia o processo evolutivo, tornando praticamente impossível que a vida avance. E, se essa teoria estiver correta, o segredo seria descobrir em que ponto da linha temporal o grande filtro surge.

Únicos, pioneiros ou lascados?

No caso da humanidade, dependendo de onde o grande filtro se encontre na linha temporal, temos três possibilidades: somos excepcionalmente raros, somos os primeiros ou estamos lascados. Considerando que somos únicos, podemos assumir que nós já ultrapassamos o grande filtro — e que é incrivelmente pouco provável que outras formas de vida tenham alcançado o nosso nível de inteligência, que dirá o nível das civilizações do tipo III.

E, se esse é o nosso caso, então é possível que o grande filtro se encontre logo no comecinho da linha temporal, o que significa que foi praticamente um milagre que a humanidade tenha surgido para começo de conversa. Essa explicação é bem válida, pois, se considerarmos que a vida demorou bilhões de anos para surgir na Terra, e que ninguém jamais conseguiu replicar esse evento em laboratório, então pode ser que não exista nenhum outro tipo de vida por aí.

Outra possibilidade, ainda no caso de sermos únicos, é que apenas a nossa civilização conseguiu ultrapassar o grande filtro — enquanto existem milhares de formas de vida no Universo que ainda poderão dar esse passo. Por outro lado, se somos os primeiros a passar pelo grande filtro, pode ser que, pela primeira vez desde o Big Bang, o Universo começou a oferecer as condições necessárias para que a vida inteligente pudesse se desenvolver.

Pense na Terra nos primórdios de sua existência e em como ela era bombardeada por asteroides, e sua superfície era abalada por sismos e erupções vulcânicas. Pois as coisas tiveram que se tranquilizar no nosso mundo até que as primeiras centelhas de vida começassem a surgir. Agora, pense nas explosões de raios gama extraordinárias que os astrônomos vêm presenciando ultimamente em galáxias distantes.

Pois, segundo Tim, da mesma forma como aconteceu com o nosso planeta, pode ser que só recentemente as coisas começaram a se amenizar no Universo, dando início a uma nova fase astrobiológica que, por sua vez, está permitido a evolução da vida. Assim, tanto nós como outras formas de vida poderiam estar caminhando para o nível de desenvolvimento das civilizações do tipo III — e elas não teriam sido detectadas porque ainda não existe nenhuma.

Estamos lascados...

Considerando que não somos excepcionalmente raros, nem somos os primeiros, então, de acordo com Tim, nos resta concluir que o grande filtro ainda está por vir — e isso é uma péssima notícia. Ter esse “obstáculo” no nosso futuro sugere que a vida evolui periodicamente até atingir determinado ponto da linha temporal, e que, mais cedo ou mais tarde, algo impede que ela continue avançando.

Esse obstáculo poderia se apresentar na forma de desastres naturais catastróficos — como uma explosão de raios gama, por exemplo — que ocorrem de tempos em tempos. E o desenvolvimento da humanidade está acontecendo justamente durante um desses intervalos. Pode ser ainda que quase todas as civilizações acabem se autodestruindo depois de alcançar determinado nível tecnológico. Vai saber...

Aliás, apesar de todo mundo estar torcendo para que a Curiosity encontre formas de vida complexas em Marte, se isso acontecer, em vez de ser algo incrível, o achado seria devastador para a nossa espécie, pois indicaria que, muito possivelmente, o grande filtro está diante de nós — e significaria que estamos lascados.

Mais explicações

Outro grupo de explicações para o Paradoxo de Fermi descarta a ideia de que existe um grande filtro da vida — ou que a humanidade é excepcionalmente rara ou pioneira. As teorias aqui giram em torno do princípio de que o nível de desenvolvimento dos humanos não tem nada de especial, e da suposição de que as civilizações do tipo II e III existem sim, mas há motivos óbvios pelos quais nós não descobrimos vestígios delas ainda.

Assim, segundo Tim, pode ser que civilizações avançadas tenham visitado a Terra, mas antes que os humanos surgissem, há mais ou menos 50 mil anos. Pois se os ETs nos visitaram antes disso, eles provavelmente assustaram um bando de aves pré-históricas e pronto. Além disso, a História escrita existe há cerca de 5,5 mil anos, portanto, quem garante que os homens das cavernas não tiveram “contatos imediatos”, mas não deixaram qualquer registro para a gente descobrir?

Mais uma possibilidade é a de que existe um bocado de atividade pelo espaço, mas a nossa tecnologia não é avançada o suficiente para detectar qualquer sinal — ou, ainda, que estamos focando na coisa errada. Tipo quando você entra em um prédio com um walkie-talkie e, depois de tentar se comunicar com alguém e não obter resposta (porque todo mundo está usando o WhatsApp, óbvio!), você conclui que não há ninguém ali.

Pode ser também que a Terra se encontre em uma espécie de zona desértica da galáxia, onde as civilizações inteligentes pensam que não existe ninguém. Outra ideia é que essas sociedades avançadas alcançaram um nível de desenvolvimento tão absurdo, e criaram um ambiente tão perfeito para a sua própria existência, que elas simplesmente não têm interesse em sair por aí vasculhando o Universo em busca de vida.

Também pode ser que as civilizações avançadas estejam por aí, mas nós somos primitivos demais para perceber sua presença — tal como as formigas de um formigueiro localizado ao lado de um aeroporto provavelmente não perceberiam a presença de toda a estrutura à sua volta, nem compreenderiam o porquê de ela ter sido construída. Ou, ainda, as civilizações superiores estão por perto, mas só nos observando e evitando o contato por sermos inferiores.

Além dessas possibilidades, quem garante que não há civilizações sanguinárias por aí, mas os nossos vizinhos sabem disso, e estão bem quietinhos para não chamar a atenção delas — enquanto nós, tolos, estamos aqui enviando sinais através do Universo para fazer contato? Ou, ainda, talvez exista uma única civilização assassina, preparada para aniquilar qualquer um que ultrapasse determinado nível de desenvolvimento.

Outra possiblidade é a de que os governos sabem que os aliens existem, e inclusive trocam umas ideias com eles de vez em quando, mas estão escondendo tudo de nós. Ou, quem sabe, o Universo não é o que pensamos, e a nossa realidade é completamente diferente daquela em que acreditamos — e nós, na verdade, vivemos em um holograma ou dentro de uma “Matrix”!

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Independente de qual seja a resposta correta ao Paradoxo de Fermi — qualquer uma delas seria surreal —, a verdade é que a humanidade continuará buscando sinais de vida inteligente fora da Terra, e descobrir que temos companhia ou, ao contrário, que estamos completamente sozinhos no Universo, seria igualmente assustador.

Além disso, o Paradoxo também nos leva a avaliar a nossa própria existência, e a encarar o fato de que, no fundo, nós sabemos muito, muito pouco a respeito do cosmos, de nós mesmos e de tudo o que nos rodeia.

E pode ser que, dentro de alguns séculos, quando os nossos descendentes olharem para o passado, eles nos vejam da mesma forma como hoje nós vemos os nossos antepassados — que acreditavam que a Terra era plana e que ela era o centro de tudo —, e descubram que nós não fazíamos a menor ideia do que a realidade era.

*Publicado originalmente em 16/07/2015.