Na Rússia, a vodka bebe você. Mas durante um tempo, não foi bem assim: em 1914, o czar Nicolau II resolveu banir o consumo de álcool, e isso incluía uma das bebidas mais consumidas no país.

É importante ressaltar que, estatisticamente, os russos não bebiam tanto assim: os franceses consumiam cerca de cinco vezes mais álcool. O problema é que a vodka era a bebida mais consumida no país, não de forma frequente, mas em grandes quantidades.

Apesar de parecer absurdo, os motivos do czar para tomar a decisão até eram pertinentes: durante a guerra contra o Japão, ocorrida 10 anos antes da decisão, o exército russo teve diversos problemas com inúmeros soldados que ficavam incapacitados de lutar em função da embriaguez, além de vários outros que desenvolveram problemas sérios relacionados ao alcoolismo.

Como a situação na Europa era bem delicada na época – a primeira guerra já estava começando a dar as caras –, a medida de eliminar a bebida no país foi justamente para reduzir o risco de problemas com as tropas e deixá-las em sua melhor forma para os combates que poderiam acontecer.

Nada de absurdo até aí, certo? Mas não vamos esquecer que estamos falando da Rússia, e lá nada é como parece. A proibição veio, e ao invés de melhorias, ela trouxe consigo mais problemas. Se hoje a vodka é intimamente relacionada aos russos, em período de guerra essa relação era ainda maior: houve um impacto massivo na moral das tropas, dos civis e também nas finanças, visto que a bebida respondia por quase um terço (!!) da receita do país.

Outro agravante para a economia é que, com o fechamento das destilarias, mais de 300 mil pessoas acabaram desempregadas e o Estado teve de pagar todas as compensações. Tudo isso comprometeu bastante o orçamento do governo em 1915.

Além de tudo, diversos protestos aconteceram, com os russos irados quebrando lojas de bebidas. O exército foi chamado para controlar os ânimos e centenas de pessoas morreram em conflitos, mas o outro problema é que os soldados também queriam beber, e alguns chegavam a invadir vinícolas particulares para saciar sua sede por álcool. Para evitar os saques, até mesmo a adega do palácio do czar teve que ser esvaziada, com vinhos valiosíssimos sendo jogados pelos bueiros.

Para compensar a falta da bebida, várias pessoas passaram a buscar alento em substâncias como a cocaína e heroína, vendidas em farmácias, mas que na mesma época foram consideradas perigosas e, portanto, também ilegais. A alternativa então passou a ser o ópio, importado da Grécia e da Pérsia por traficantes.

Outros inclusive tentaram criar sua própria destilaria caseira, fazendo com que a produção de vernizes e polimento de móveis crescesse absurdamente nesse período. Dessa forma, os russos tentavam destilar o que estivesse ao alcance da mão: desde serragem e aparas de madeira até beterrabas e qualquer tipo de planta que fosse possível.

Para o governo russo, no entanto, tudo estava ótimo – pelo menos era o que as propagandas governamentais da época diziam. Segundo os relatórios oficiais (e nada críveis) da época, as pessoas e animais (sim, até eles!) estavam mais felizes, o dinheiro que a população gastava em bebida agora estava sendo economizado e o único "problema" enfrentado era a taxa de suicídio que havia despencado, fazendo com que faltassem corpos para aulas de anatomia.

Quando a Primeira Guerra estourou, no entanto, a falta da receita proveniente da vodka certamente teve seu efeito. O czar teve dificuldades em gerenciar a crise econômica e política e, três anos depois da proibição da bebida mais importante da Rússia, a revolução tomou corpo no país.

A proibição só caiu em 1925, quando as autoridades soviéticas decidiram que precisavam de dinheiro para modernizar o país. Relatos da época dizem que as pessoas comemoraram a reabertura das destilarias com muita alegria nas ruas, se abraçando e se beijando.

Talvez tivesse sido melhor para o czar ter tomado uma dosezinha de vodka em vez da decisão de proibi-la.