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Com tabu nas demissões, empregados japoneses vão parar em salas de tédio

Se você pensa que as manias esquisitas dos japoneses se limitam à vida pessoal dos jovens, então saiba que a coisa é muito pior do que você imagina. Um exemplo peculiar é a forma como eles lidam com as rigorosas regras para demitir empregados: através das “salas de demissão” (“oidashibeya”, em japonês), lugares para onde funcionários indesejados são enviados para ficarem sem fazer absolutamente nada até desistirem do trabalho.

Uma reportagem publicada no New York Times na sexta-feira (16) mostrou um exemplo da prática ao contar a história de Shusaku Tani, empregado da Sony há 32 anos que não aceitou uma proposta de aposentadoria precoce quando sua vaga no Centro de Tecnologia de Sendai deixou de existir, dois anos atrás.

Fonte da imagem: Reprodução/The New York Times

Desde então, sua rotina se resume a ir até uma pequena sala da empresa e passar o dia lendo jornais, navegando na internet e estudando livros de seu tempo de faculdade. Ao final do período diário de “trabalho”, ele e outros 40 funcionários em situação similar têm de enviar relatórios sobre suas atividades.

Propostas

A Sony sugeriu que Tani seja tranferido para uma linha de montagem da companhia e passe a seguir turnos de 12 horas de trabalho, proposta que o funcionário aceitou. Segundo a empresa, as chamadas “salas de design de carreira” oferecem aconselhamento para que os funcionários encontrem novos empregos. Eles também recebem propostas generosas de aposentadoria: um pagamento equivalente a até 54 meses de salário.

No entanto, as “oidashibeyas” continuam presentes, e a imprensa japonesa afirma que empresas como Panasonic, NEC e Toshiba também possuem práticas similares. Exemplo disso é o caso mostrado no jornal Asahi Shinbun de um funcionário da Panasonic que foi forçado a passar seu dias dentro de uma pequena sala, encarando monitores em busca de irregularidades.

Legado

Esse tipo de prática se origina nas práticas de trabalho únicas ao Japão. Lá, a relação entre empregado e empregador não pode ser vista como algo superficial, mas sim vitalício. No país, demissões em massa são vistas com maus olhos, o que levou a taxa de emprego do país a atingir um valor máximo de 5,4% nos últimos 60 anos, em 2002.

Fonte da imagem: Reprodução/Horrores da segunda guerra

Entre os funcionários, é considerado comum trabalhar intensamente, com grande lealdade à companhia e em turnos extremamente longos, tudo isso em troca de estabilidade e participação nos resultados. A prática chega ao extremo de causar até mesmo morte por excesso de trabalho – situação que tem até um termo específico no idioma, “karoshi”.

Essa realidade foi um dos fatores responsáveis pela recuperação do Japão após a Segunda Guerra Mundial e sua elevação à sua elevada posição na economia mundial. No entanto, atualmente ela ajudou a causar a estagnação econômica do país, o que o primeiro-ministro Shinzo Abe busca combater com medidas que, entre outras coisas, incluem a flexibilização do mercado de trabalho.