Um dos filmes mais falado do ano, até agora, é “mãe!”, do diretor Darren Aronofsky. O cara adora mexer com a cabeça de seus espectadores, vide obras como “Cisne Negro”, “Pi” e “Réquiem Para um Sonho”, mas com sua última produção ele conseguiu polarizar a plateia: a maioria ama ou odeia, dificilmente ficando no meio termo.

Igualmente dividida está a galera que sacou as referências bíblicas logo de cara e as que só foram notar essas relações ao buscar informações sobre o filme na internet. Ainda que “mãe!” abra brechas para discussões envolvendo o ambientalismo (defendendo por Aronofsky) e o feminismo (principalmente pelo papel de Jennifer Lawrence), o grande mote está em compreender que a obra nada mais é do que uma adaptação da Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse.

Para compreender ainda mais o filme, selecionamos alguns trechos do Livro Sagrado dos cristãos que fazem referência direta à história mostrada:

1. Criação de Adão e Eva (Gênesis 2: 21-23)

“Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar. E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada”

Os personagens não possuem nome, mas, nos créditos, o ator Javier Bardem é chamado de ELE, enquanto Jennifer Lawrence é a MÃE – uma referência a Deus e à Mãe-natureza. Quando o personagem de Ed Harris aparece, esta é a visão de Aronofsky para a criação de Adão. Repare na cena em que o homem vomita que ele possui um ferimento na altura da costela: pouco depois, entra a mulher, na figura de Michelle Pfeiffer.

Ed Harris

2. Expulsão do Paraíso (Gênesis 3: 6-24)

“E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. (...) O Senhor Deus, pois, os lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida”

O Paraíso de Aronofsky se concentra no alto da casa (uma referência ao Céu) e é onde o escritor cria sua obras, sendo vedada a presença de estranhos. Por isso, a Mãe insiste para que os visitantes não entrem no aposento. Após eles descumprirem essa ordem, ambos são expulsos da casa, e o escritório é lacrado. E tem até o fruto proibido nas telonas, visto na forma de um cristal.

Michelle Pfeiffer

3. Caim e Abel (Gênesis 4: 7-16)

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.
(...) O Senhor, porém, disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse.”

Após serem expulsos do quarto, o Homem e a Mulher do filme aparecem fazendo sexo, uma referência à luxúria. Na sequência, aparecem os filhos, que discutem por conta de uma herança. O mais velho acaba matando o mais novo e recebe um corte na testa feito por seu pai – no filme, é o “Adão” que aplica o castigo.

Gleemson

4. O grande dilúvio (Gênesis 7 e 8)

“No ano seiscentos da vida de Noé, no mês segundo, aos dezessete dias do mês se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram. E houve chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites. E no mesmo dia entraram na arca Noé, seus filhos Sem, Cão e Jafé, sua mulher e as mulheres de seus filhos. Eles, e todo o animal conforme a sua espécie. E durou o dilúvio quarenta dias sobre a terra, e cresceram as águas e levantaram a arca, e ela se elevou sobre a terra. Tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu”

Darren Aronofsky já havia contado a história do grande dilúvio em “Noé”, seu filme anterior, mas agora ele narra os eventos de forma figurativa. Em “mãe!”, o funeral de Abel reúne um mundaréu de gente, que começa a destruir o mundo (a casa), a ponto de que a tubulação estoura e alaga o ambiente. A Mãe-natureza expulsa todos de casa e um período de calmaria se inicia.

Mother

5. A queda de Lúcifer (Apocalipse 12: 7-12)

“E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão (...), Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. (...) E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte.”

Um trecho com várias referências: Lúcifer seria a editora de Javier Bardem, interpretada por Kristen Wiig, que declara ter duvidado da inspiração exercida por Jennifer Lawrence – a mulher é vista matando várias pessoas insanamente, tal como o anjo caído! O novo poema do filme seria uma referência ao Novo Testamento, enquanto o porão, com sua caldeira em chamas, o inferno.

Javier Bardem

6. A crucificação de Jesus Cristo (Mateus 27: 32-56)

“E por cima da sua cabeça puseram escrita a sua acusação: este é Jesus, o rei dos judeus.
E foram crucificados com ele dois salteadores, um à direita, e outro à esquerda. E dizendo: Tu, que destróis o templo, e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo. Se és Filho de Deus, desce da cruz. (...)E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito.”

O nascimento do filho da Mãe é uma clara alusão a Jesus Cristo, tanto que seu criador no filme quer que todos os conheçam – algo que acaba em uma trágica cena com a morte do bebê. Antes, existe uma referência aos presentes dos Reis Magos. Após a morte da criança, os seguidores do “escritor” comem a carne e bebem o sangue de seu filho, parecido com o que Jesus faz com seus apóstolos na última ceia.

JLaw

7. O apocalipse (II Pedro 3: 10-12)

“Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão. Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato, e piedade. Aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?”

Após a morte de seu filho, a Mãe se enfurece com todos da casa e resolve destruir tudo aquilo. Ela desce ao porão, onde inicia um grande incêndio e acaba por aniquilar aquele mundo, com todos os elementos se fundindo em uma nova joia para a apreciação do escritor/Deus. Após o grande dilúvio, Deus prometeu que nunca mais acabaria com o mundo através de um dilúvio, por isso a representação do fogo, tal como descrito em II Pedro.

Apocalipse

8. A nova Terra (II Pedro 3: 13)

“Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.”

O final do filme nos leva a um novo começo, como se o mundo anterior tivesse recebido uma nova chance de dar certo – algo que a própria Bíblia mostra em II Pedro, através da ideia de sermos uma criação cíclica de Deus. Será que desta vez ele conseguirá manter os humanos afastados das tentações?

Mother

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E aí, caro leitor, sacou mais alguma referência? Qual faltou incluir nesta lista? Deixe suas percepções do filme nos comentários!