Como você deve saber, os antigos egípcios não se dedicavam a mumificar apenas corpos humanos. Criaturas como gatos, cães, aves e répteis eram preservados através do mesmo processo – e no caso destes últimos, é possível que os crocodilos, especificamente, fossem deliberadamente caçados para esse fim. Essa teoria surgiu recentemente, após pesquisadores da Université Paul-Valéry Montpellier III, na França, examinarem um desses animais mumificados e descobrirem que o pobre bicho morreu em decorrência de uma cacetada na cabeça e que o processo para embalsamar o seu corpo começou logo após o seu falecimento.

Pobres animais...

De acordo com Meilan Solly, do Smithsonian.com, a teoria de que os crocodilos eram caçados para serem preservados foi proposta depois de os pesquisadores submeterem uma múmia de 2 mil anos a exames de microtomografia sincrotrônica – método que permite a obtenção de imagens superdetalhadas sem oferecer risco de causar qualquer tipo de dano ao delicado artefato.

(Fonte: Smithsonian.com / Reprodução)

As análises apontaram que o crocodilo – um macho com idade estimada entre 3 e 4 anos e corpo medindo pouco mais de 1 metro de comprimento – apresentava uma grave fratura no crânio. Pois, o tipo de ferimento, bem como a direção em que os ossos se romperam, parecem consistentes com uma violenta pancada na cabeça, provavelmente desferida com o uso de um bastão de madeira ou porrete enquanto a criatura se encontrava descansando fora d’água. Além disso, os exames revelaram que a cacetada foi tão forte que acabou por afetar o cérebro do animal e causar a sua morte.

Mas os testes trouxeram à tona ainda mais detalhes... Segundo os cientistas que examinaram a múmia, o estômago do crocodilo ainda continha vestígios de seus últimos petiscos – como ovos de réptil, um peixe, um roedor e uma porção de insetos –, reforçando a suspeita de que o processo de mumificação foi iniciado pouco depois de o bicho ser morto, o que indica que ele deve ter sido caçado especialmente para isso. Sobre o embalsamamento em si, os pesquisadores identificaram que quem quer que tenha capturado e convertido o crocodilo em múmia aplicou óleos e resinas em seu corpo, corrigiu o afundamento craniano e embalou a carcaça do coitado em várias camadas de linho.

Oferendas divinas

É importante destacar que os exames foram conduzidos em uma única múmia de crocodilo e, embora os resultados sugiram que esses animais eram ativamente caçados como forma de sacrifício e, depois, convertidos em múmias para oferenda, é necessário realizar análises em outros exemplares mumificados para comprovar que realmente se tratava de uma prática largamente disseminada.

(Fonte: Independent / AP / Reprodução)

De qualquer forma, diversos animais eram associados a diferentes divindades no Antigo Egito e era bastante comum sacrificar e mumificar uma variedade deles como oferendas – como é o caso de gatos, cães, falcões e íbis, que eram relacionados com os deuses Bastet, Anúbis, Hórus e Thoth, respectivamente. Os crocodilos também eram superimportantes para a cultura egípcia, já que, por conta de sua agressividade e por viverem no Nilo, essas criaturas simbolizavam força e fertilidade, tanto que milhares de múmias desses animais já foram descobertas no Egito.

O animal examinado pelos cientistas franceses foi encontrado no início do século 20 durante escavações realizadas em Kom Ombo, cidade situada às margens do Nilo e famosa por conta do Templo de Kom Ombo, dedicado às divindades Hórus e Sobek, representadas por um homem com cabeça de falcão e outro com cabeça de crocodilo, e novos testes deverão ser realizados em outras múmias para comprovar a teoria.