Acidente automobilístico, ataque cardíaco, envenenamento, convulsão fatal, suicídio, assassinato, overdose de drogas, medicamentos ou intoxicação alcoólica. Essas são apenas algumas das causas de morte de alguns músicos, atletas e atores que integravam o intitulado "Clube dos 27". O nome surgiu por conta do crescimento de mortes de celebridades na casa dos 27 anos de idade, o que se tornou alvo de teorias da conspiração.

A revista Rolling Stones já chegou a listar mais de 71 artistas que fariam parte desse “clube”, porém os rostos que as pessoas fazem mais associação a ele são os de Janis Joplin, Kurt Cobain, Jim Morrison, Amy Winehouse, Jimi Hendrix e Brian Jones.

Aparentemente, tudo começou com uma fala ambígua de Wendy Fradenburg Cobain O’Connor, a mãe do cantor Kurt Cobain, logo após a morte dele: “Agora ele vai se juntar àquele clube. Eu disse para ele não se juntar àquele clube idiota”.

Algumas pessoas leram a declaração como uma revolta pessoal da mulher enlutada após ter alertado o filho várias vezes para se cuidar e não se degradar como os outros músicos que ele conhecia bem. Já para outros, a fala foi mais uma reflexão interna da mulher, chocada, como se soubesse de algo sombrio que o filho tivesse realizado para poder se tornar quem foi e que ela nunca teria concordado com isso.

(Fonte: The Young Folks/Reprodução)(Fonte: The Young Folks/Reprodução)

A mídia foi a responsável por dar o nome "Clube dos 27", que se enraizou de maneira permanente na cultura popular. Ela ainda serviu para disseminar o típico contexto fáustico do homem frustrado que realiza um pacto com o diabo para conseguir o que mais quer na vida. Sendo assim, as antigas histórias de pessoas que já haviam declarado ter recorrido ao obscuro para alcançar a própria glória foram impulsionadas com força total.

No entanto, embora tenha sido a partir de Kurt que o Clube dos 27 tenha surgido, poucos sabem que foi Robert Johnson o responsável por encabeçar a lista e dar início a todas as teorias que foram apenas endossadas com a morte do cantor.

Os primeiros passos de uma lenda

(Fonte: Listal/Reprodução)(Fonte: Listal/Reprodução)

Robert Leroy Johnson nasceu em Hazlehurst, no Mississippi, em 8 de maio de 1911, bem no ápice da cultura do linchamento nos Estados Unidos. Apenas 1 dos 10 filhos de Charles Dodds, um proprietário de terras e fabricante de móveis, foi forçado por uma multidão de linchadores brancos a deixar Hazlehurst quando Jonhson ainda era bebê.

Desde muito jovem, Jonhson já gostava de música, carregando sempre consigo uma gaita e uma harpa. Aos 18 anos, logo após se casar com Virgínia Travis em meados de fevereiro de 1929, o homem decidiu abandonar a vida de fazendeiro e marido para se dedicar à música em tempo integral. Apesar de ser reconhecido como um ótimo tocador de gaita, ele era um péssimo guitarrista e não se conformava com isso.

No ano de 1930, em Robinsonville, no Mississippi, Johnson estava em uma espécie de casa de shows, onde Son House e Willie Brown — lendas do blues — iriam tocar para uma plateia lotada. Entre os sets, o aspirante a músico se atreveu a pegar um dos violões dos músicos para tocar algumas de suas composições, mas tudo o que saiu foi um som arranhado, desafinado demais, fazendo as pessoas cobrirem as orelhas. “As pessoas começaram a reclamar”, lembra-se Son House no documentário ReMastered: Devil at the Crossroads, feito pela Netflix.

Os donos do local colocaram Jonhson para correr. Ninguém ouviu falar dele durante 1 ano inteiro, até que House e Brown esbarraram com o jovem novamente em um noite. Jonhson estava em posse de um violão regular de 6 cordas e uma 7ª corda extra, algo extremamente incomum e que Brown nunca tinha visto antes.

Jonhson tocou como nunca, passando de harmonias que levariam muitos anos de prática para aprender. Ele inclusive deu uma palinha do que seria chamado de "blues de 12 compassos", uma progressão harmônica que se tornaria mundialmente reconhecida.

Do dia para a noite, o homem se tornou um verdadeiro fenômeno com os dedos. Em 1932, logo após ter perdido a sua mulher no parto de seu 2º filho dos 3 casamentos que teve, ele partiu para o mundo em uma carreira como músico itinerante, a qual culminaria em seu reconhecimento.

Uma ode à abertura dos portões

(Fonte: AlloCiné/Reprodução)(Fonte: AlloCiné/Reprodução)

O que se sabe da vida de Robert está documentado em suas músicas. Em anos de análises feitas, a canção Me and the Devil Blues” foi vista como o relato da vida pecadora de um homem que era acompanhado por uma força maligna que estava à sua porta todas as manhãs. Por outro lado, em uma de suas maiores obras, Crossroads Blues, é como se o músico deixasse claro o seu arrependimento, concluindo que seu fim foi no mesmo lugar onde tudo começou.

Eu fui para encruzilhada e me ajoelhei. Pedi ao Senhor: tende misericórdia! Eu tentei conseguir uma carona, mas ninguém parecia me reconhecer. Eu acredito em minha pobre alma agora. O pobre Bob está se afundando[...]”.

De acordo com relatos de conhecidos do homem, amigos de trabalho e outras fontes do Mississippi, acredita-se que Johnson saiu daquela casa de show naquela noite, frustrado e envergonhado, e foi até um mestre hodu (vertente do vodu) que o levou até uma encruzilhada. Há séculos que o Mississippi é conhecido como um dos locais onde a cultura do vodu haitiano se instalou nos Estados Unidos. Lutando com o cristianismo local, a prática se tornou sinônimo de artes ocultas.

Robert teria ido para o sul do estado à procura de um conjurador, uma espécie de mestre do hodu, que era algo muito popular naquele tempo. O músico teria feito parte de uma cerimônia para invocar Papa Legba, o primeiro espírito Loá, um dos mais poderosos, o considerado mensageiro, intérprete entre os seres humanos e qualquer espírito existente, dentro ou fora da cultura do vodu.

(Fonte: Monsters and Critics/Reprodução)(Fonte: Monsters and Critics/Reprodução)

O homem teria pedido por um pacto com o diabo para o mensageiro espiritual em troca de vasto conhecimento na Música e habilidades como instrumentista. Não se sabe exatamente o que ele pode ter oferecido em troca, mas a resposta é meio óbvia e um consenso para todos: ele vendeu a própria alma.

A fama, então, chegou de modo instantâneo ao homem. Ele foi perseguido por fãs nos lugares que tocou, tendo a sua voz e o lirismo de suas melodias apreciados por muitas pessoas. O músico começou a compor apenas 3 anos antes de sua misteriosa morte e gravou cerca de 29 músicas em 2 sessões (que foram realizadas entre novembro de 1936 e junho de 1937). Com as regravações que fez, o total de canções foi 42, mas que, infelizmente, só adquiriram ampla notoriedade depois que foi encontrado sem vida, às vésperas de receber uma proposta para tocar pela 1ª vez no Carnegie Hall.

No dia 16 de agosto de 1938, depois de ter completado 27 anos, Robert Johnson morreu sob estranhas circunstâncias após um show em um bar em Greentwood, no Mississippi. Ele supostamente teria sido envenenado pelo marido ciumento de uma de suas amantes. Se foi isso, então ironicamente a própria fama teria causado a sua ruína ou teria sido apenas o diabo que abriu o cadafalso do destino sob os pés dele? Talvez tudo isso não passasse de uma infeliz coincidência.

Claud Johnson, o filho do músico lendário, acredita que o pai simplesmente rogou a Deus na encruzilhada que tantos afirmam que ele firmou um pacto demoníaco. Ele acredita que Deus despertou o talento que já havia dentro do pai. Mas... e você? No que acredita?