Em seu estúdio em Paris, Elisabeth Daynès usa barro e silicone para fazer modelos que tentam reproduzir elementos do evolucionismo. A artista especializada em esculturas de cunho paleontológico se foca em dar aos seres distantes “seu rosto, sua identidade e humanidade” de volta. Ela diz que cada modelo é a “síntese de todo o conhecimento sobre as origens da humanidade”.

Após ter começado com a modelagem trabalhando com máscaras para teatro, a artista começou a se interessar pelos conceitos da evolução humana e, ao longo de 20 anos, criou diversas esculturas realistas, como Lucy, uma Australopithecus afarensis, espécie que acredita-se ter vivido entre três e dois milhões de anos atrás.

Seu trabalho, intrinsecamente ligado à pesquisa científica, tem sido exibido em museus ao redor do mundo. “Eu tenho uma vocação clara: revelar os segredos de ossos antigos e evidências do passado”, diz a escultora. “Eu me tornei obcecada com crânios. Eu queria dar uma face para cada crânio que via. O objetivo não era mais contribuir para a produção de uma peça ou filme, mas decifrar as origens da raça humana.”

Como funciona o procedimento

O processo inicia-se a partir de uma análise do crânio da espécie. Então, ela cria um modelo computadorizado usando 18 pontos de referência nos ossos, para saber como os músculos da face, o formato do nariz e a testa deveriam ser.

A francesa então usa barro para moldar as feições do rosto. “Eu sempre sigo o mesmo protocolo rigoroso de dois passos: primeiro me foco em realçar os traços do grupo fóssil ao qual o crânio pertence e então eu revelo as peculiaridades do indivíduo”, ela diz.

Uma vez que a escultura esteja completa, é feito um molde de silicone em que são pintados detalhes meticulosos, como veias, rugas e sardas. As próteses oculares e dentárias aumentam o ar realista da obra. Daynès diz que usa de pelo de iaque ou cabelo humano, para compor a pelagem dos hominídeos.

Pesquisa científica

“Seguindo a abordagem de uma investigação forense, eu uso as pistas que encontro no fóssil para criar uma identidade do indivíduo: grupo fóssil, data, idade da morte, gênero provável, doenças, deficiências, padrão de dieta, fauna associada, clima, condições de vida, ambiente, cultura etc.”, diz a escultora sobre pesquisar os detalhes que o crânio por si só não informa.

“Eu coleto todos esses dados em longas discussões com especialistas, paleontologistas, antropólogos e anatomistas para guiar as decisões que faço em cada passo do processo de reconstrução e para ter certeza de que minhas criações estão levando em conta os estudos científicos mais recentes.”

Daynès acredita que os humanos pré-históricos são demasiadamente associados à brutalidade, mas ela tenta capturar sua humanidade. Ela diz ter dificuldades para dizer adeus às suas criações, levando às vezes meses para fazê-lo, devido ao tempo que passa próxima aos rostos e corpos das criaturas.

“Um projeto de reconstrução me faz entrar em um relacionamento que se assemelha a um ato de amor. Quando minhas esculturas vão para um museu ou exibição, eu sinto muita falta delas. Me sinto ansiosa por elas e fico esperando que sejam bem tratadas”, desabafa a artista.