Imagine uma pessoa andando na rua com um canário preso numa caixa como a da foto abaixo.

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Provavelmente alguém tiraria uma foto, e a pessoa carregando o objeto seria linchada nas redes sociais, mas o que à primeira vista parece uma câmara de tortura, na verdade, servia como forma de tentar salvar a vida de pessoas que trabalhavam em minas, além do próprio animal.

O alarme de canário

Hoje possuímos tecnologia para o desenvolvimento de sensores eletrônicos de gases, mas antes dessa possibilidade os canários eram utilizados como uma espécie de alarme contra a presença de monóxido de carbono. A solução foi utilizada até 1986, e na época 200 canários ainda trabalhavam nesse arriscado serviço.

A ferramenta funcionava baseada no sistema respiratório do animal. Após muitos desastres com mortes em massa ocorrendo em minas, John Haldane resolveu investigar os motivos. Ele descobriu que, na maioria das vezes, as tragédias ocorriam devido à inalação de monóxido de carbono, gás incolor e inodoro que pode matar sem aviso. O sujeito também era um estudioso da respiração, de animais e de seres humanos e sugeriu a utilização dos pássaros como uma forma de alarme.

Sistema respiratório dos pássaros

Assim como a maioria dos pássaros, os canários possuem um complicado sistema respiratório, que trabalha sempre tentando obter o máximo de oxigênio do ar. Essa propriedade é importante porque, além do alto gasto energético durante o voo, em maiores altitudes o ar se torna rarefeito, exigindo uma maior eficiência na absorção do oxigênio.

Animação comparando Animação comparando nossa respiração e a das aves

Quando um pássaro respira, absorve cerca de 20% do seu volume em ar, enquanto seres humanos inalam um total de 5%. Durante nossa respiração, o ar entra nos pulmões, absorvemos o oxigênio, e em seguida o ar é expelido.

Já nos pássaros, a respiração é quase contínua. Parte do ar armazenado na inspiração vai para o pulmão, enquanto o resto se aloja em sacos aéreos, distribuídos pelo corpo do animal. Quando o ar do pulmão começa a ser expelido, o que foi armazenado nesses sacos toma seu lugar, fazendo com que a absorção de oxigênio ocorra praticamente de forma ininterrupta.

Ao mesmo tempo que isso é uma vantagem evolutiva, eles ficam mais vulneráveis a gases tóxicos, pois absorvem tudo de forma mais rápida. Com  base nisso, os canários eram levados dentro dessas caixas de vidro, que possuíam uma grade frontal e uma porta adicional que a lacrava. Quando existia algum gás tóxico no ambiente, o canário começava a mostrar sinais de desconforto e, em alguns casos, até caía do puleiro.

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Nesse momento, os mineiros fechavam a caixa e abriam a válvula do reservatório de oxigênio, fazendo com que o animal respirasse ar puro. Ao mesmo tempo, eles saíam da mina o mais rápido possível, pois, se o canário havia se sentido mal, eles seriam os próximos. Como o organismo do animal é muito sensível, existia tempo hábil para eles escaparem.

Hoje em dia, podemos ver essa ferramenta como algo nocivo aos animais, mas as condições da época não forneciam muitas opções para salvar a vida dos mineiros. De qualquer forma, o tubo de oxigênio estava sempre ali, e a vida de todos era preservada.