O predador mais temido da história, o tiranossauro, guarda surpresas até hoje. Quem já assistiu ao filme Jurassic Park sabe que, apesar de suas patinhas dianteiras quase inofensivas, esse animal era assombroso em todos os seus outros membros. É o que a história conta, pelo menos.

Por meio da análise de fósseis, muitos detalhes já foram descobertos sobre os dinossauros e outros animais que viveram no nosso planeta, mas nenhum fato é verdade absoluta: a ciência está sempre evoluindo e às vezes muda de opinião. Dessa vez, o alvo foi o tiranossauro. É sabido que esse predador tinha dois grandes buracos no topo da cabeça, chamados fenestras dorsotemporais. Até pouco tempo, pesquisadores acreditavam fielmente que essas cavidades eram repletas de músculos que auxiliavam os movimentos da mandíbula desse animal.

(Fonte: Elo7/Reprodução)

Essa afirmação, contudo, soava um tanto estranha para o professor de anatomia da Faculdade de Medicina de Missouri, Casey Holliday, que decidiu estudar mais a fundo o assunto. Para isso, ele se uniu a um grupo de cientistas para estudar diversos jacarés do Parque Zoológico St. Augustine Alligator Farm, na Flórida, já que as duas espécies têm um parentesco e guardam algumas semelhanças relevantes entre si. Os resultados levam a acreditar que até hoje não sabíamos ao certo como a cabeça dos tiranossauros funcionava.

"É realmente estranho que um músculo saia da mandíbula, faça uma curva de 90 graus e siga para o topo do crânio", problematiza Holliday. "Mas agora temos muitas evidências convincentes sobre a presença de vasos sanguíneos nessa área com base em nosso trabalho com jacarés e outros répteis".

(Fonte: Sharp Teeth and Internal AC from Mizzou News on Vimeo.)

Para estudar os répteis, os pesquisadores utilizaram uma tecnologia que traduz calor em luz visível, criando imagens térmicas. Os jacarés são reis da resiliência, e não é à toa que a temperatura de seu corpo se altera dependendo do local em que estão. Com isso em mente, Holliday e seus colegas observaram os animais em momentos de resfriamento e aquecimento para saber como a anatomia de sua cabeça se comporta diante de tais mudanças.

Quando os jacarés estavam se resfriando, os buracos no topo de seu crânio (similares aos do T-rex) ficavam escuros, como se estivessem desligados. "O calor corporal de um jacaré depende do seu ambiente", explica Kent Vliet, coordenador de laboratórios no departamento de biologia da Universidade da Flórida. "Percebemos que quando estava mais frio e os jacarés tentavam se aquecer, a imagem térmica mostrava grandes pontos quentes no crânio justamente onde estão localizadas as cavidades, indicando um aumento na temperatura. No entanto, quando o ambiente estava mais quente, as mesmas cavidades ficavam escuras, como se tivessem sido desligadas para causar um resfriamento".

Imagem gráfica do crânio de um T-rex (Fonte: Brian Engh/Reprodução)

Com as imagens térmicas em mãos, os pesquisadores decidiram examinar os restos fossilizados dos T-rex para analisar como as cavidades cranianas foram mudando ao longo do tempo. "Sabemos que, da mesma forma que o T-rex, os jacarés apresentam esses orifícios no crânio, repletos de vasos sanguíneos", diz Larry Witmer, professor de Anatomia da Universidade de Ohio.

Apesar disso, há mais de 100 anos os cientistas colocaram músculos na jogada, mesmo que essa peça não complete o quebra-cabeça. Hoje, os pesquisadores acreditam que, por meio da anatomia e fisiologia de animais que conhecemos atualmente e que estão ligados de alguma forma com os dinossauros, seja possível derrubar essa hipótese e criar um novo entendimento sobre o T-rex.

Para ler o estudo na íntegra, acesse o periódico da Associação Americana de Anatomia clicando aqui.