A imagem que ilustra a página sobre Larry Tesler na Wikipedia (e a mais usada nas matérias que falam de sua morte) mostra o cientista da computação sorrindo, o ouvido encostado em um copo-de-leite. O que não foi noticiado é que ele estava se deliciando com os gemidos de uma mulher em pleno orgasmo, transmitidos pelas flores – o mote da instalação Whisper (Sussurro), montada na Yahoo! Design Expo 2007 pelo então estudante de graduação da Universidade da Califórnia em Los Angeles Jay Yan.

Tesler escuta um copo-de-leite gemer na Yahoo! Design Expo, em 2007. (Fonte: Flickr/Yahoo/Divulgação)

O inusitado tornado simples e, por isso mesmo, surpreendente, foi o tônica da trajetória de Tesler pela computação. Mesmo tendo sido o pai de uma das mais geniais invenções da história dos computadores (os comandos “cortar”, “copiar” e “colar”), ele não ficou famoso.

Seu canal do YouTube tem apenas 32 seguidores e um vídeo – um documentário de menos de dez minutos sobre o Stanford Card Stunt Program (algo como “Programa de Acrobacias com Cartões de Stanford), software de animação por computador criado em 1961 para automatizar o que sempre fora um processo manual demorado, realizado por estudantes voluntários.

https://youtu.be/wN1opFMXJbY

A universidade era sua Alma Mater, onde se formou em Ciências da Computação. Desde sempre, o desenvolvimento da inteligência artificial o fascinou (quando estudante, nos anos 1960, trabalhou no Laboratório de IA da instituição).

Computação e militância

Formado, entre 1973 e 1980 tanto trabalhou como militou: enquanto ajudava a desenvolver o Compel (uma das primeiras linguagens de programação funcional de atribuição única, que tornou o processamento simultâneo mais natural no ensino de programação), falava contra a guerra do Vietnã e o monopólio de grandes corporações, como a IBM (tema de suas aulas na Universidade Livre de Midpeninsula)

Depois da universidade, ele participou da fase de ouro do Xerox Palo Alto Research Center (ou Xerox PARC). Ali, trabalhou com Tim Mott para criar um processador de texto chamado Gypsy – onde estavam inseridos os comandos “cortar”, “copiar” e “colar”, posteriormente aproveitados pela Apple.

Tesler se mudaria para a Apple Computer em 1980, seis meses depois de dar uma demonstração na linguagem Smalltalk, criada por ele, à equipe do Lisa (um computador pessoal revolucionário lançado em 1983, com mouse e interface gráfica simplificada). Ele ficaria na empresa de Steve Jobs até 1997.

Tesler e o Lisa. (Fonte: Guidebook/Reprodução)

Ocupando inúmeros cargos ao longo da carreira, fez o que mais gostava: simplificar, popularizar, inovar. O Lisa, inspirado nas estações de trabalho Xerox, foi a mais marcante contribuição de Tesler à criação do PC.

Steve Jobs em uma foto promocional do Apple Lisa. (Fonte: GQ/Ted Thai/Reprodução)

O projeto mostrou o que mais Tesler buscava: tornar softwares e interfaces de usuário mais acessíveis, através de um design conhecido como computação sem modelo (hoje usado no macOS da Apple ou no Windows da Microsoft).

Larry Tesler fala no PC Forum, em janeiro de 1990. (Fonte: Flickr/Ann Yow-Dyson/Reprodução)

Rumo à consultoria

Ao deixar a Apple, Tesler trabalhou em sua própria empresa (Stagecast Software) no desenvolvimento de apps para ensinar a crianças conceitos de programação. Em 2001, esteve na Amazon; em 2005, rumou para o Yahoo, e, por fim, para a 23andMe, de 2008 a 2009. A partir daí, tornou-se consultor.

Tesler morreu aos 74 anos (não foi divulgada a causa). Ele pode ser lembrado apenas como o "pai do copia/corta/cola, mas foi muito mais do que isso. Em grande parte, por causa dele o computador saiu dos centros de pesquisa para a casa do usuário comum, ao tornar a máquina, então algo inusitado, em uma coisa simples e, por isso mesmo, surpreendente.