Adolescência é uma fase difícil na vida do ser humano. Com diversas mudanças no corpo e na personalidade, é comum que pessoas sejam imprevisíveis e passem por problemas neste período da vida. E não é diferente com o melhor amigo do homem. Pesquisadores da Universidade de Newcastle, descobriram que cães também passam por problemas emocionais durante a puberdade.

Segundo o The Guardian, após uma série de experimentos, os pesquisadores chegaram a conclusão que os cães se tornam mais rebeldes na adolescência. Além de serem mais desobedientes neste período, também tendem a demonstrar uma crescente falta de respeito por seus cuidadores.

A Dra. Lucy Asher, coautora do estudo, traçou um paralelo sobre a relação dos adolescentes, sejam eles cães ou humanos, com seus pais ou tutores. "Geralmente, os adolescentes que têm um relacionamento menos seguro com os pais são aqueles com maior probabilidade de mostrar mais comportamentos conflitantes com os pais. Essa é a mesma descoberta que temos [entre cães adolescentes e seus cuidadores], explicou.

Dra. Lucy e sua cachorra, MarthaDra. Lucy e sua cachorra, Martha

A pesquisa foi publicada na revista Biology Letters e apontou que os cães que passam pela puberdade geralmente testam seu vínculo com o cuidador, usando suas frustrações. Isso os ajuda a avaliar se é mais inteligente permanecer ou encontrar um parceiro, mas também pode levar ao abandono.

Foco da análise foi em cães-guia

A equipe focou sua análise no comportamento de possíveis cães-guia, como labradores, golden retrievers ou pastores alemães. Nessas raças, a puberdade começa entre os seis e nove meses de vida.

Um dos experimentos avaliou a capacidade de resposta de cães de ambos os sexos a comandos como "sentar" por várias idades. Dois grupos foram testados, um com 82 cães com idade de cinco meses e outro com 80 cães com idade de oito meses. Os resultados sugeriram que os adolescentes eram significativamente menos obedientes. Os cachorros de oito meses têm duas vezes mais chances de ignorar o comando 'sentar' em comparação aos de cinco meses.

Ainda assim, a Dra. Asher afirma que as mudanças comportamentais que ocorrem nos caninos durante a adolescência ainda são um pouco misteriosas. "Sabemos que existem alterações hormonais e sabemos que há uma grande reorganização do cérebro que ocorre nessa época entre mamíferos, por isso estamos bastante confiantes de que isso está acontecendo em cães", afirmou.

Para complementar a pesquisa, a equipe ainda analisou um questionário preenchido por 285 proprietários de cães. Os cuidadores relataram uma dificuldade na capacidade de treinamento em seus cães entre as idades de cinco e oito meses.

Sinais de ansiedade em cachorros aumentam aos oito meses de idade

Além disso, a pesquisa descobriu que os sinais de ansiedade de separação, como tremores quando deixados sozinhos, aumentavam por volta dos oito meses de idade. Esse período coincidiu fortemente com uma queda na obediência. Além disso, cadelas que tinham um vínculo menos seguro com seus cuidadores começaram a puberdade mais cedo.

Estudo mostra que sinais de ansiedade se intensificam aos oito meses de vidaEstudo mostra que sinais de ansiedade se intensificam aos oito meses de vida

Porém, a pesquisa gerou questionamento de especialistas. A Dra. Claudia Fugazza, da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, considerou o trabalho altamente importante em um campo que carece muito de conhecimento científico sobre a adolescência canina. Porém, para ela, a pesquisa deixou muito a desejar.

Fugazza questionou a importância que o estudo atribuiu aos questionários. Para ela, as respostas podem ser muito subjetivas. Ela também argumentou que as comparações entre pais e filhos não foram suficientemente exploradas em comparação com os cuidadores e seus cães, nem os fatores que estabelecem o vínculo menos ou mais seguro usado no estudo.

Já a professora de psicologia e neurociência cognitiva da Universidade de Cambridge, Sarah-Jayne Blakemore, elogiou a pesquisa. "Em humanos, a adolescência é frequentemente associada ao aumento de riscos, influência de colegas e conflito com os pais", disse ela. "Isso provavelmente se deve a vários fatores, incluindo alterações hormonais, desenvolvimento cerebral e cognitivo e mudanças no ambiente social".

"A pesquisa sugere que certos comportamentos que associamos aos adolescentes não são exclusivos dos seres humanos".

Asher explicou que sua intenção com o estudo é transformar donos de cães frustrados em donos mais empáticos. Ela afirma que, assim como os adolescentes, o mau comportamento de um cão adolescente é temporário e está enraizado na biologia, e não no desafio pessoal:

"Talvez eles não estejam se comportando mal apenas porque são impertinentes, mas é como nos seres humanos - os hormônios estão em fúria e há coisas acontecendo no cérebro".