“Nós precisamos encontrar novas formas de cultivar alimentos”, consta em um artigo veiculado pela Food and Agriculture Organisation da ONU (Organização das Nações Unidas). “Insetos oferecem uma oportunidade significativa para relacionar o conhecimento tradicional à ciência moderna, tanto para os países desenvolvidos quanto para aqueles em desenvolvimento.”

Ok, talvez isso ainda não te anime tanto a dar uma bela bocada em um monte de larvas de insetos gratinadas. Mas o texto acima certamente inspirou um estudante da Academia de Artes da Islândia. No período em que foi discente na instituição, o designer Búi Bjarmar Aðalsteinsson concebeu o protótipo de uma “fazenda de moscas” que — acredita ele — em breve poderá ser visto mesmo nos restaurantes mais requintados ao redor do globo.

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Conforme ele aponta, os chamados “insetos comestíveis” possuem alto teor protéico, podendo ainda ser criados com alimentação barata — restos de comida ou, essencialmente, qualquer biomassa disponível — e em quantidades bem menores do que seria necessário para criar, digamos, uma cabeça de gado bovino. Quanto? Entre “5 e 10 vezes menos”.

Utensílio de cozinha + lixo + refrigerador com autorreposição

“A Fazenda de Moscas inclui um tanque de criação em que as larvas dos insetos são engordadas, enquanto os nutrientes que elas exalam são colhidos”, disse Aðalsteinsson, em entrevista ao site Dezeen, elucidando a geringonça (bastante elegante) que hoje ocupa o Museu de Arte de Reykjavík, na Islândia.

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“As larvas produzem um solo rico em nutrientes, o qual é subsequentemente drenado para dentro de sacos de adubo e utilizado para melhorar a produção de vegetais”, ele explica. Trata-se, portanto, de um sistema de compostagem, similar àqueles mantidos por várias pessoas em seus quintais: as larvas comem restos e excretam matéria rica em nitrogênio (substância fundamental na adubagem).

Em termos leigos? Trata-se do cultivo de plantas em fezes de larvas, com a diferença de que mesmo as larvas são aproveitadas para a alimentação — no que foi chamado por seu criador de “utensílio de cozinha, depósito de lixo e refrigerado com autorreposição”, tudo em um único aparato vistoso.

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“A fazenda foi projetada para que não gere perdas e para utilizar materiais que, de outra forma, seriam jogados fora”, disse o projetista. De fato, mesmo o calor gerado pelo refrigerador é utilizado pelo refrigerador — a fim de armazenar as larvas e outros ingredientes — como fonte termal, mantendo a umidade e a temperatura reguladas para a criação de moscas.

Moscas mais higiênicas

Deve ser realmente difícil abandonar a noção cultural de que “insetos são nojentos”. Entretanto, Aðalsteinsson faz questão de frisar: os seus são bastante limpos. Tratam-se de moscas-soldado pretas, espécie que é considerada “mais higiênica” do que outras.

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Entre as razões para o status, está o fato de que sua versão adulta possui aparelho bucal atrofiado. De fato, ele não busca por alimentos durante seu ciclo de vida bastante curto. O único objetivo de uma mosca-soldado preta adulta é encontrar um parceiro sexual para reproduzir.

Essa reputação também vem do fato de que, usualmente, as larvas da espécie são utilizadas para higienizar compostos e também ração animal. Dessa forma, por que não utilizar também para a alimentação humana? “Insetos podem ser fontes importantes na busca de métodos de cultivo e produção ecológicos de alimentos ricos em proteínas”, ele explica.

“Tem gosto de galinha”

Além de ter projetado a Fazenda de Moscas, Aðalsteinsson também se tornou um cozinheiro perito em pratos com larvas. Entre suas receitas preferidas, encontram-se o patê de larvas e um pudim de coco... Com larvas. “Elas têm gosto semelhante ao de carne de galinha”, disse ele ao referido site.

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“Não há um sabor distintivo. Depende dos temperos que você utilizar para prepará-las.” Não obstante, a receita com coco ainda é a sua preferida. “As crianças adoram”, garantiu o designer.

Como convencer as pessoas a comerem larvas?

O objetivo, entretanto, é levar a culinária baseada em larvas para além do critério naturalmente “experimentador” das crianças: Aðalsteinsson pretende que seus pratos alcancem os altos píncaros mesmo da culinária mais elitizada. Naturalmente, há aí um empecilho cultural que não poderia ser ignorado — mas que, ao que parece, também não é instransponível.

“A melhor forma de introduzir novos alimentos é investigar a cultura local associada à comida”, explicou o designer (e chef) ao site Dezeen. Para tanto, ele foi buscar ajuda com um “especialista local” em comida. “Nós discutimos a influência da cultura associada à alimentação e como seria possível alterar a visão que os islandeses têm do comer insetos.”

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Após alguma pesquisa, Aðalsteinsson afunilou suas possibilidades. “Para encurtar a história, nós nos chegamos a dois métodos possíveis: um evento especial em um restaurante chique e outro a produção de alimentos em linha, de acordo com os padrões da indústria ocidental.” Dessa forma, o “patê de larvas” e o “pudim de coco com larvas” acabaram como materializações do segundo dos métodos prospectados por Aðalsteinsson.

Dessa forma, considerando a junção do politicamente correto aos critérios de uma alimentação mais saudável, Aðalsteinsson espera que, em breve, não faltem restaurantes com menus recheados de pratos com larvas suculentas.