Sou uma pessoa cheia de rituais. Levanto, vou ao banheiro, deixo o café passando, tomo banho e assisto a dois jornais na TV antes de sair de casa, enquanto tomo um balde de café. Chego ao escritório, ligo meu computador, tiro meus anéis e vou limpar meus óculos. Depois, munida de mais café, escolho alguma música e começo a ler e a escrever. Todo começo de dia, salvo raras exceções, é a mesma coisa.

Sempre achei essa coisa de “todo dia ela faz tudo sempre igual” um pouco triste, mas, ao ler a coluna do Eric Barker na revista Time, em que ele escreve sobre psicologia e comportamento de uma maneira geral, percebi que meus rituais podem estar me fazendo bem. Ufa!

Barker explica que todos os rituais recomendados para uma manhã mais produtiva e, consequentemente, um dia melhor, poderiam ser resumidos em apenas um: ter rituais.

Calma, que a gente explica

Dizer que o principal ritual é ter um ritual é meio confuso, a gente entende. A questão aqui é que, cientificamente falando, apenas ter um ritual já é o que basta. Segundo Barker, quanto mais personalizado for esse ritual e quanto mais frequente ele for em sua vida, mais positivos serão os efeitos dele.

Logicamente, nossos dias são diferentes e têm momentos e tarefas diferentes, e o que parece ser fundamental mesmo é esse ritual pessoal que fazemos antes de tudo: vale banho, café com jornal, meditação, oração, suco de laranja, música clássica, yoga.

Para trazer esse tipo de informação, Barker conversou com a professora de Harvard Francesca Gino, que escreveu um livro sobre o assunto, e as dicas dadas por ela parecem ser realmente interessantes.

Gino explica que rituais nos fazem aproveitar melhor as experiências. No caso da comida, quando aproveitamos o momento do preparo do alimento, ele fica mais saboroso – quem nunca ouviu a mãe dizendo que a comida ficou boa porque ela colocou “amor” que atire a primeira pedra. Dedicar um tempo para saborear os momentos felizes da sua vida é uma forma, cientificamente comprovada, de melhorar o seu humor.

A autora conta também que alguns rituais são comprovadamente benéficos para a nossa saúde física e mental: quando a família segue algum tipo de ritual, as crianças tendem a ter menos problemas respiratórios e uma saúde melhor, de um modo geral. Como se não bastasse, elas têm um desempenho melhor na escola também.

“Em famílias com rituais fortes, os adolescentes têm um senso maior a respeito de si mesmos, os casais vivem casamentos mais felizes e as crianças têm uma interação melhor com seus avós”, explica a autora.

Para descobrir que ritual é bom de se ter em família, Barker conversou com Bruce Feiler, autor de um best-seller sobre o assunto. Em seu livro, Feiler conta que, quando as pessoas de uma família jantam reunidas, as crianças dessa família têm menos chances de virem a beber, fumar, usar drogas, cometer suicídios e desenvolver distúrbios alimentares.

Um estudo complexo sobre o assunto, realizado pela Universidade de Michigan entre os anos de 1981 e 1997, revelou que a quantidade de tempo que as crianças passavam comendo em casa era o fator que mais influenciava a vida acadêmica dessas crianças, que apresentavam também menos problemas de comportamento. O tempo passado com a família, especialmente durante as refeições, foi o fator mais importante de desenvolvimento, ficando acima de estudar, praticar esportes e de participar de atividades religiosas.

Com relação a relacionamentos amorosos, pode comemorar: rituais fazem bem a eles também. Nesse sentido, o bom é ter sempre um momento para trocar boas notícias com a pessoa que você ama. E vale para outros relacionamentos que não sejam amorosos também: “Quando você ou seu esposo ou primo ou melhor amigo conquista alguma coisa, parabenize-o (e a você mesmo) e celebre. Tente aproveitar a ocasião ao máximo”, aconselha a publicação.

É importante também saber receber boas notícias: quando a pessoa que você ama conta algo de fenomenal que aconteceu na vida dela, demonstre que você também está feliz. De acordo com o expert em relacionamentos, John Gottman, essa é uma das formas mais poderosas de demonstrar amor.

E quando as coisas não vão bem?

Fazer rituais quando tudo vai muito bem, obrigada, é fácil, mas e quando algum ente querido morreu ou quando um namoro de anos chega ao fim? De acordo com Gino, quando as pessoas experimentam uma perda importante, se elas se apegam a um ritual, elas se sentem menos em luto e menos tristes. Nesse sentido, os rituais trazem a sensação de controle e reduzem os níveis de raiva e tristeza.

Um ritual interessante para ser feito quando as coisas não vão bem é o da escrita. De acordo com o professor Jamie Pennebaker, há muitos estudos que comprovam que escrever em momentos de tristeza é um exercício que faz com que as pessoas se sintam melhores rapidamente.

Antes de momentos importantes, como uma apresentação na faculdade ou uma reunião de trabalho, ter um ritual é algo capaz de deixar a pessoa extremamente mais calma e confiante. Um ritual de respiração, por exemplo, seria uma ótima ideia.

O escritor Charles Duhigg afirma que criar rituais é fundamental até para quem quer deixar a procrastinação de lado. Ele explica que a reclamação maior dos procrastinadores é sempre com relação ao primeiro passo e, por isso, sugere que a pessoa que tem dificuldades de começar uma tarefa deve desenvolver um hábito que seja sempre repetido quando vai começar alguma coisa.

Ele explica que, cinco minutos antes de dar início à atividade, a pessoa deve fazer algo divertido – ouvir uma música, jogar video game ou ver vídeos de gatos no YouTube. Assim que o tempo acabar, ela precisa começar a fazer o que quer que tinha proposto. Basicamente, dessa forma o indivíduo está se permitindo procrastinar, mas apenas por alguns minutos.

Rituais ajudam no ambiente de trabalho?

Ajudam, é claro! Barker exemplifica essa questão falando a respeito dos rituais de alguns jogadores que fazem questão de usar sempre a mesma meia. No final das contas, isso funciona! Gino explica que pesquisas realizadas com jogadores que têm rituais comprovaram que isso os deixa mais confiantes e positivistas em campo.

“Pequenos rituais não apenas melhoram a sua habilidade, eles podem também deixar você mais criativo”, escreve Barker, para nossa alegria. Ele conta a respeito de um estudo realizado em 2008 pela Universidade de Toronto. Na ocasião, o pesquisador Chen-Bo Zhong descobriu que realizar pequenas atividades como caminhar, lavar louça ou tirar um cochilo é algo que nos permite acessar informações extras em nosso cérebro.

Nesse sentido, a dica é manter rituais que você sempre achou que faziam bem de alguma maneira e adotar novos rituais, mesmo que isso pareça uma atividade boba. Quando algo simples e não prejudicial deixa você mais confiante, não tem por que não tentar, não é mesmo?

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