Se você acha que seus pais e avós são mais rabugentos do que você e seus amigos, talvez acredite na premissa de que vamos ficando mais ranzinzas à medida que envelhecemos. Será? Um fato recente que levantou essa questão foi a saída do Reino Unido da União Europeia.

A decisão mexeu com o mundo todo, e, entre os ingleses, foram os mais jovens que protestaram contra a medida. Já os responsáveis pelo veredito, por outro lado, foram pessoas mais velhas motivadas principalmente por fatores econômicos, nacionalistas e contra processos de imigração. De maneira bem resumida, foi o que aconteceu, e a prática comprovou o que já suspeitávamos: envelhecemos e vamos ficando mais conservadores.

Por quê?

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Aí é normal que você pergunte: mas por que as pessoas mais velhas são mais conservadoras? A verdade é que nesse sentido é preciso levar em consideração os efeitos de cada geração, afinal as pessoas mais velhas de hoje nasceram em uma época completamente diferente da de agora e foram criando suas opiniões em meio a fatores históricos importantes, como guerras, ditaduras, fundamentações políticas e por aí vai. Ainda não existe um estudo que tenha feito um mapeamento de opinião política de uma geração por mais de cinco décadas, por exemplo.

Ainda assim, já sabemos de alguns fatores que contribuem para essa mudança ideológica com o passar do tempo. Norte-americanos nascidos na década de 1920 têm uma visão matrimonial completamente diferente daqueles nascidos na década de 1990, por exemplo. Isso vale para outras populações, mas falamos nos norte-americanos porque é de lá um estudo que comprovou algo interessante.

Quando estamos em nossos 18 anos, criamos a ideologia mais forte de nossa existência, que nos acompanhará pela maior parte das nossas vidas. Até que, de repente, mudamos. Alguns estudos já sugeriram que nos fechamos para novas experiências quando vamos ficando velhos, e não ter uma mente aberta é sinônimo de conservadorismo.

Diferenças

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O professor de Psicologia Brent Donnellan explica justamente isso: pessoas mais abertas a novas experiências são mais liberais em todos os sentidos. Para ele, uma pessoa muito liberal aos 40 anos de idade possivelmente continuará liberal quando chegar aos 60 anos – o que muda é a comparação entre o nível de liberalismo de uma pessoa de 60 anos e o de uma de 25. Por mais liberal que a de 60 seja, perto da de 25 ela sempre será um pouco menos liberal.

Esse padrão tende a se repetir mesmo em culturas diferentes. Um estudo de 2009 analisou as inclinações políticas de poloneses e belgas, que são povos com histórias diferentes em relação ao período pós Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, o padrão comportamental se manteve.

Outra explicação para o fato de ficarmos mais conservadores na velhice tem a ver com a necessidade de, com o passar do tempo, ficarmos mais introspectivos, um comportamento mais do que natural.

Uma questão de tolerância

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Em 2007, um estudo analisou uma série de pesquisas feitas sobre a relação entre liberalismo e idade, e o que os pesquisadores descobriram foi que, quando o assunto envolve tolerância social e declarações como “mulheres foram feitas para cuidar de suas casas e de seus maridos”, as gerações mais velhas se mostraram mais tolerantes em comparação com suas respostas em períodos anteriores, o que também nos mostra que tolerância é algo que se pode aprender.

Falar em tolerância abre as portas para discussões sobre preconceito também. O psicólogo Bill von Hippel, da Universidade de Queensland, na Austrália, descobriu que os mais velhos têm a necessidade de agir com justiça e de eliminar padrões negativos de pensamento. Acontece que, no meio desse processo, eles não conseguem se controlar e acabam soando preconceituosos.

Para Hippel, isso pode ter também uma explicação fisiológica, que teria a ver com a deterioração do cérebro. “Muitas pesquisas mostram que adultos mais velhos sofrem perdas na sua capacidade de inibir pensamentos indesejados”, disse o psicólogo. Ele contou também, em declaração publicada na Vox, que, realmente, as pessoas tendem a se posicionar contra a imigração conforme envelhecem.

Estereótipos

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A verdade é que durante toda a vida somos expostos a estereótipos, independente de acreditarmos neles ou não. É preciso muito esforço mental para desconstruir estereótipos e pensar de uma maneira mais liberal, o que exige, em termos anatômicos, grande atividade na região cerebral dos lobos frontais.

Os experimentos de Hippel já conseguiram comprovar que pessoas mais velhas ficam mais racistas também, por uma questão que a psicologia chama de “associação implícita”. Isso acontece porque os idosos tendem a se lembrar mais de estereótipos e apresentam também falhas cerebrais de autocontrole, que os fazem proferir declarações inapropriadas.

Hippel disse, ainda, que os idosos tendem a ser mais “rabugentos” na parte da tarde, o que nos comprova que, mesmo na velhice, ainda que em menor proporção, conseguimos controlar a relação entre o que pensamos e o que dizemos, pelo menos um pouco.

Todas essas questões nos fazem perceber que, de fato, nossos padrões de pensamento mudam conforme a idade avança, e você não precisa necessariamente ser um idoso para perceber isso: basta se lembrar de algumas de suas crenças de cinco ou dez anos atrás. Continuam todas as mesmas? Como você acha que será na velhice? Acredita que é interessante começar desde cedo a treinar seu cérebro a pensar menos em estereótipos? Conte para a gente nos comentários!