Quando pensamos por que ainda estamos vivos, algumas das grandes razões bastante óbvias que vêm à mente são as vacinas, os antibióticos, a água limpa ou medicamentos para doenças cardíacas e câncer.

Porém, a nossa sobrevivência atual vai muito além, sendo que às vezes nem imaginamos que coisas como o algodão ou até animais, como as vacas, colaboraram na história para nos manter vivos por mais tempo. Confira abaixo algumas das razões inusitadas ou até mesmo desconhecidas pelas quais as pessoas estão vivendo vidas mais longas e saudáveis do que nunca.

1 – Algodão

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Um dos maiores assassinos da história da humanidade foi o tifo, uma doença bacteriana transmitida por piolhos do corpo Pediculus humanus corporis (não o de cabelo). O tifo derrotou o exército de Napoleão e foi responsável por grandes epidemias em outras guerras que se seguiram.

Além de condições de higiene precárias — o que pode ter contribuído para as epidemias —, antigamente, a lã era o principal material de vestuário antes de o algodão começar a ser usado. E a lã favorece um ambiente perfeito para os piolhos se instalarem.

Já o algodão não é tão hospitaleiro para os bichos, sendo também mais fácil de limpar. Por isso, quando o cultivo de algodão se intensificou e as roupas passaram a ser produzidas com esse material, as ocorrências de tifo foram drasticamente reduzidas.

2 – Satélites

Em 1900, um furacão devastou a cidade costeira de Galveston, no Texas, e matou cerca de oito mil pessoas, tornando-se o mais mortífero da história dos Estados Unidos. Em 2008, outro forte furacão atingiu a mesma cidade, o Ike.

Apesar de seus ventos serem menos poderosos em terra firme do que os da tempestade de 1900, a agitação e aumento da maré que criou na costa foi muito maior, e isso é geralmente o que mata mais pessoas. No entanto, o número de mortos foi bem menor do que em 1900, sendo pouco mais de cem pessoas.

Mais de um milhão de moradores de áreas costeiras da região foram alertados e tiveram tempo de evacuar os locais e se salvarem. Tudo isso graças a uma rede de satélites, que monitoram as tempestades e tornados graves, e permitem que a população possa ser alertada sobre a situação antes de ela chegar.

3 – Água fluoretada

Existiam muitas maneiras miseráveis de morrer antes de meados do século 20, mas morrer de um abscesso no dente, em uma infecção lenta, dolorosa, que se tornava generalizada poderia ser uma das piores. Hoje em dia essa é uma forma muito rara de se mandar para o mundo dos mortos.

Além do acesso mais facilitado aos profissionais de odontologia, mesmo para as pessoas de baixa renda, os cuidados com a higiene bucal é um costume totalmente difundido na maioria dos países do mundo. Escova de dente, fio dental, pasta e a adoção da água fluoretada com certeza salva milhares de vidas.

4 – Telas contra insetos

Moscas são sempre irritantes, mas elas também costumavam ser importantes vetores de doenças diarreicas mortais antigamente. A água limpa e os tratamentos de esgotos eliminaram os meios mais óbvios de transmissão destas doenças, mas as chatas das moscas continuaram a espalhar micróbios mortais em muitas regiões do mundo — infelizmente, isso ainda acontece em alguns países.

Porém, por volta de 1920 — de acordo com James Riley, autor do livro Rising Life Expectancy: A Global History (“Aumento da Expectativa de Vida: Uma História Global”) —, uma crescente aversão aos insetos e a introdução de telas nas janelas das casas reduziu muito este risco de transmissão de doenças pelas moscas.

5 – Pontos refletores no asfalto

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Os pontos refletores em relevo que ficam entre as pistas da estrada foram inventados por Elbert Botts, um químico que trabalhava para o Departamento de Transporte da Califórnia.

Os pontos ajudam os motoristas a ver a borda da faixa de rodagem e a divisão de pistas, mesmo no escuro ou quando está chovendo. Os primeiros pontos Botts foram instalados em rodovias da Califórnia em 1966 e a invenção se espalhou pelas rodovias de todo mundo, ajudando a evitar acidentes fatais.

6 – Informação

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças vem publicando desde a metade do século 20 informações e recomendações de saúde pública confiáveis, precisas, objetivas e úteis para a população.

A informação sobre toda e qualquer doença é uma das principais armas para evitá-la ou combatê-la. Quando uma nova doença ou perigo emerge — como foi o caso da AIDS ou quando surge uma nova cepa da gripe — os centros de controle de doenças geralmente são os primeiros a informar os meios de comunicação e as pessoas.

7 – Ar condicionado

Que o diga quem mora em lugares muito, mas muito, quentes. Apesar de sofrermos um pouco no verão com as temperaturas altas, existem lugares em que as ondas de calor são tão fortes que chegam realmente a matar.

Em 1995, uma onda de calor Chicago matou mais de 700 pessoas em uma semana. Esse número é muito alto para uma morte desse tipo. O Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos emite alertas dessas ondas e as cidades começaram a oferecer centros de resfriamento com ar-condicionado para as pessoas que não têm em casa. Um estudo recente mostrou que o ar condicionado cortou a taxa de mortalidade em dias extremamente quentes em 80% desde 1960.

8 – Pasteurização

A pasteurização de laticínios também foi um grande avanço para barrar a mortalidade. O leite contaminado foi uma das principais causas de morte de crianças, transmitindo a febre tifoide, escarlatina, difteria, tuberculose e outras doenças. Criado pelo químico francês Louis Pasteur (daí o nome), a pasteurização consiste em um processo que destrói os micro-organismos patogênicos.

Uma das campanhas de maior sucesso de saúde pública do final do século 19 e início do 20 foi pelo leite pasteurizado, algo já tão difundido atualmente que pouquíssimas pessoas devem se lembrar que esse alimento já foi praticamente mortal algum dia.

9 – Sapatos

Os vermes que causam a ancilostomíase (doença conhecida como amarelão) são parasitas que entram no corpo humano através da pele dos pés descalços. A doença era muito comum no passado, principalmente em áreas rurais, se disseminando quando as pessoas andavam descalças em terreno contaminado com fezes de pessoas que já estavam infectadas. Era um ciclo contínuo.

No entanto, no início do século 20, iniciativas de educação encorajaram de forma mais incisiva as pessoas a construírem latrinas sanitárias e a usarem sapatos. No Brasil, entre 1920 e 1998 a incidência caiu de 74% para 5,4% (nas áreas rurais) e 0,8% (setor urbano) da população conforme a urbanização aumentou e o uso de calçados se tornou cada vez mais comum.

10 – Vacas

A incidência de malária das áreas rurais sempre foi muito grande, principalmente no passado, atacando mais as pessoas que viviam em áreas úmidas ou próximas a córregos. Observando isso, alguns agricultores perceberam que se eles trocassem algumas plantações pela criação de gado (vacas e bois), eles conseguiriam desviar a atenção dos mosquitos transmissores da doença.

E, assim, eles passaram a fazer isso e, de fato, os mosquitos preferiram sugar o sangue dos bovinos ao dos humanos, ajudando a quebrar o ciclo da malária. Com o tempo, larvicidas, pesticidas, sistemas de drenagem, melhores condições de habitação, higiene, agricultura mecanizada e menos pessoas vivendo em áreas rurais ajudou a reduzir bastante os casos da doença.

11 –  A bondade humana

Não deveríamos reclamar muito. Apesar dos vários perrengues pelos quais a nossa geração passa hoje em dia, no início do século 20 a coisa era muito, mas muito pior, principalmente em se tratando de saúde. Um simples resfriado podia levar uma pessoa para o túmulo como num passe de mágica. É claro que o sistema de saúde do Brasil ainda precisa melhorar bastante, mas muitos médicos e profissionais de saúde se esforçam ao máximo para dar conta do trabalho.

O famoso e contemporâneo filósofo Daniel Dennett teve uma epifania após a cirurgia de emergência, há alguns anos. Um agradecimento sincero, que não foi religioso, pois ele é um ateu. Em vez de agradecer a Deus, ele percebeu que deveria agradecer a bondade humana, mostrando o que muitos de nós poderíamos parar para pensar de vez em quando:

"A quem, então, eu tenho uma dívida de gratidão? Ao cardiologista, que me mantém vivo por anos. Aos cirurgiões, neurologistas, anestesistas e assistentes de cirurgia, que mantiveram os meus sistemas funcionando por muitas horas sob circunstâncias assustadoras. Para as dezenas de outros assistentes dos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos de radiologia e um pequeno exército de profissionais que colhem sangue tão habilmente, além das pessoas que trouxeram as refeições, mantiveram minha sala limpa. Lembro-me com gratidão o meu falecido amigo, o físico Allan Cormack, que dividiu o Prêmio Nobel por sua invenção do tomógrafo. Allan, você postumamente salvou mais uma vida, mas quem está contando? O mundo é melhor com o trabalho que você fez. Graças a sua bondade. Depois, há todo o sistema de medicina, tanto a ciência e a tecnologia. Então, sou grato aos conselhos editoriais e referências, passados e presentes, da revista Science e Nature, Journal of the American Medical Association, Lancet, e todas as outras instituições da ciência e da medicina que continuam produzindo melhorias, detectando e corrigindo falhas".

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Estas são apenas algumas das inúmeras maneiras que as pessoas têm deixado a vida de todos mais segura, mais saudável, menos dolorosa e longa do que jamais poderíamos ter imaginado há alguns séculos.