Um dos maiores medos de quem estuda para vestibular ou concurso é a redação, afinal não há fórmula para chegar a um resultado ideal, e sempre tem algum professor dizendo que tudo o que precisamos é criatividade – como se fosse assim tão fácil. Criar uma coisa nova, que é o princípio básico da criatividade, ainda é um bicho de sete cabeças para muita gente.

Para piorar, estamos acostumados a ouvir por aí gente dizendo que criatividade é talento nato – nasceu sem, já era – ou que ela depende de inspiração, que é provavelmente uma das coisas mais impalpáveis do universo. Inspiração pode ser qualquer coisa. Pode ser a nuvem em formato bizarro no céu ou um velhinho simpático sentado em um banco de praça. E quando abrimos o leque, fica ainda mais complicado descobrir o que é que nos inspira...

A cada receita para um trabalho criativo, novas ligas se formam na caraminhola que é essa sua cabecinha – a gente sabe. A boa notícia é que você pode respirar aliviado – muito do que você aprendeu sobre criatividade não passa de lorota, balela, conversa fiada. O Life Hacker reuniu alguns mitos sobre o processo criativo e, claro, nós vamos compartilhar com você agora mesmo:

1 – Criatividade é algo que nasce com você

Mentira, né? Já viu alguma mãe de recém-nascido dizer que o bebê tem os olhos do pai e a criatividade do avô? Então. Esse tipo de afirmação apenas desmotiva quem busca exercitar sua criatividade ou começar a desenvolvê-la.

A ideia de que pais criativos têm filhos criativos pode até fazer sentido, mas isso acontece provavelmente porque essas crianças receberam estímulos desde cedo, o que só nos confirma que, sim: criatividade pode ser ensinada.

Lembra aquela história de que um dos lados do cérebro é mais criativo do que o outro? Muitos testes nesse sentido incentivam as pessoas a descobrirem qual dos lados controla suas vidas, mas a verdade é que neurocientistas modernos têm feito pesquisas que visam comprovar que essa divisão em lado criativo e lado não criativo não faz sentido, no final das contas.

Esse confronto científico nasceu do fato de que pesquisas recentes mostraram que várias regiões cerebrais são ativadas pela criatividade, criando uma rede de ligações cognitivas e emocionais que não podem ser limitadas a apenas um dos lados do órgão.

Basicamente o que precisamos entender é que criatividade é fruto do trabalho de diversas regiões cerebrais – e não há pessoas desafortunadas que nasceram sem essas regiões. Simples.

Reduzir o processo criativo a algo considerado “de nascença” é errado e injusto com quem treina sua capacidade mental frequentemente. Walt Disney foi demitido em 1919 de um jornal. A justificativa do editor? O cara tinha pouca imaginação e nenhuma ideia realmente boa. Eita.

2 – Inspiração não se controla

Em alguns casos, sim, você tem uma ideia nova completamente sem esperar por isso, mas inspiração pode ser fruto de prática também. Aqui mesmo no Mega Curioso nós já demos uma dica valiosa para quem precisa ter uma boa ideia: saia caminhar por aí um pouco.

A verdade é que algumas novas pesquisas sugerem que esses insights criativos que acontecem quando estamos tomando banho ou dando uma volta em um parque surgem apenas em pessoas que trabalham seu lado criativo. Não é mágica, amigos, é treino. Da mesma forma que a pessoa que quer ficar com os músculos definidos pega pesado na academia, quem quer ter boas ideias precisa treinar a mente.

De acordo com a psicóloga Shelly H. Carson, de Harvard, esses insights são o resultado de um “período de incubação”, quando a mente esquece os problemas do cotidiano e começa a fazer novas conexões cerebrais. Esse fenômeno é conhecido como “pensamento divergente”, e é uma das bases da criatividade. Então se você está se perguntando como é que se treina a mente, eis uma boa maneira: fazendo coisas diferentes e deixando os problemas de lado, se possível.

O cartunista do Looney Tunes, Chuck Jones, disse uma vez que é preciso fazer 100 mil ilustrações ruins até que alguém possa ser considerado um bom ilustrador. Outra pessoa que nos deixa claro que o negócio é botar a mão na massa é o fotógrafo Chuck Close, que diz que “inspiração é para amadores – o resto de nós apenas aparece e faz seu trabalho”.

3 – Criatividade não se aprende

Bem... Se tem uma coisa que a gente espera que você tenha entendido até agora é justamente que criatividade se aprende, sim. As pessoas estão acostumadas a pensar em criatividade como uma qualidade ou uma característica, como explicamos no primeiro item, com a qual algumas pessoas nascem e outras, não.

Alex Osborn, que foi o cara que simplesmente criou a prática de brainstorming – um exercício bastante conhecido da galera de Publicidade, Criação e Marketing – deu início também ao Centro de Estudos em Criatividade, que existe em Nova York. Para quem trabalha lá, é bastante claro que criatividade é algo que pode ser ensinado.

Já foi comprovado, por exemplo, que escritores veteranos com pelo menos 10 anos de experiência, têm as áreas cerebrais da criatividade mais trabalhadas do que os escritores novatos. Isso nos mostra, mais uma vez, que é tudo uma questão de treino.

4 – Para criar, é preciso estar isolado

A concepção de que boas ideias surgem em momentos de solidão e isolamento é, no mínimo, equivocada. Na Pixar, por exemplo, os ilustradores e a equipe de criação fazem reuniões para discutir ideias, ouvindo palpites e sugestões de todos os envolvidos.

A criação em grupo é utilizada desde muito antes da realização de qualquer pesquisa sobre o assunto. Sabia, por exemplo, que J. R. R. Tolkien, C.S Lewis e Charles Williams participavam de um grupo de criação chamado Inklings? Basicamente os escritores se encontravam informalmente em bares ou na casa de alguém para mostrar seus rascunhos e ouvir a opinião dos outros. Não precisamos nem dizer que a tática deu certo, não é?

Inclusive, uma das histórias envolvendo os encontros do Inklings é sobre Lewis tendo que convencer Tolkien de que “O Senhor dos Anéis” era bom o suficiente para ser publicado. Nesse caso, nosso eterno agradecimento a Lewis.

5 – Criatividade é coisa de quem tem tempo de sobra

Na verdade, não é bem assim. Imagine que você vai ter um mês de férias e que não vai viajar nesse período. Você acorda tarde, assiste desenho (independente da sua idade), come sanduíche na hora do almoço e fica em frente à televisão. E aí, onde é que a criatividade entra nessa história?

Na Idade Média, criatividade era vista como uma espécie de inspiração divina; no Renascimento, mais pessoas passaram a ser responsáveis pela criação de grandes obras de arte – contanto, é claro, que fossem talentos grandiosos como Da Vinci, Michelangelo e Botticelli.

Já nos séculos 19 e 20, a criatividade se tornou algo capaz de separar indivíduos por classes sociais e status. Essa coisa de status acabou fortalecendo a ideia que criatividade é para quem tem tempo de sobra, não faz nada, não precisa trabalhar para pagar as contas etc.

No entanto, olha só, algumas pesquisas recentes sugerem que criatividade é mais presente em pessoas que vivem com algum tipo de restrição social, financeira ou mesmo de recursos no trabalho.

Um estudo promovido pela Universidade de Amsterdam descobriu que quando as pessoas estão diante de uma dificuldade, elas acabam sendo obrigadas a dar um passo para trás, olhar a coisa toda por um viés diferente, forçar seu cérebro a criar conexões novas e, a partir disso, realizar o que é chamado de “processamento global”, que é uma das bases do processo criativo.

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É bastante cômodo usar algumas das desculpas acima para não ser criativo, mas o ideal é correr atrás, buscar ajuda, ler, escrever, desenhar ou fazer seja lá o que deixa você satisfeito. A palavra chave é treino.