Um dos momentos que definiu a humanidade ao longo da história foi o desenvolvimento da agricultura em detrimento do estilo de vida nômade dos caçadores que vieram antes. Muitos estudiosos acreditam que essa mudança é uma das grandes responsáveis por toda a evolução do homem desde então.

No entanto, alguns pesquisadores acreditam que isso pode ter tido também um aspecto bastante negativo na forma como os nossos corpos se adaptaram a esse novo estilo ao longo do tempo. De acordo com cientistas da Autoridade em Antiguidades de Israel, da Universidade de Dublin e da Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo, nossos dentes e mandíbulas foram os primeiros a sofrer com essa mudança.

Comparando cerca de 300 ossadas que remontam de um período entre 6 e 28 mil anos atrás, eles perceberam que a dentição dos membros de tribos nômades da época anterior a 12 mil anos atrás tinha uma excelente oclusão (o encaixe dos dentes superiores e inferiores). A partir do momento em que a agricultura começou a se tornar o modo de vida mais comum, a mandíbula humana alterou sua forma e tamanho, o que hoje se reflete no nascimento de dentes tortos, má oclusão e outros problemas semelhantes.

Uma dieta à base de carne e vegetais crus necessitava de uma mordida mais poderosa, mas, a partir do momento em que passamos comer alimentos cozidos, isso não foi mais necessário. Nosso corpo começou a diminuir nossa mandíbula para compensar esse efeito, mas o tamanho dos dentes não acompanhou essa redução de forma proporcional.

Ossos do ofício

Mais ou menos na mesma época nossos ossos começaram a mudar também, se adaptando a um estilo de vida mais estacionário. Eles anteriormente eram bastante compactos, para resistir aos hábitos de caçada intensos, mas passaram a ser mais leves e compridos conforme a agricultura florescia e por consequência se tornaram mais frágeis e quebradiços também, o que explica diversas doenças ósseas como artrite, artrose, osteoporose etc.

As estruturas que formam as juntas entre os ossos também foram analisadas e os pesquisadores concluíram que, em comparação com nossos ancestrais caçadores, esses pontos também são muito mais fracos hoje do que naquela época. Basicamente, a partir do momento em que a agricultura se tornou a escolha da maior parte da população, os resultados biológicos internos e externos foram devastadores.

Assim que grandes grupos começaram a se estabelecer em uma mesma área, doenças se proliferaram de forma muito mais rápida, principalmente pelo fato de não haver saneamento básico nem a noção de higiene pessoal que temos hoje. Hoje, no entanto, a parcela da população mundial que se dedica à agricultura é muito menor, mas o sedentarismo se tornou ainda mais acentuado.

Muitos de nós passam o dia inteiro sentados em escritórios, fazendo refeições com pouco ou nenhum valor nutricional, praticando atividades físicas esporadicamente e tendo ciclos de sono irregulares. Se a história se repetir, o organismo dos seres humanos daqui a mais alguns milhares de anos pode ser muito inferior ao que já foi um dia, quando vagávamos pela Terra em uma luta diária para conseguir alimento.

*Publicado em 05/12/2015