Durante minha graduação em Letras na UFPR, não era raro um professor trazer à tona a ideia de que os artistas são “antenas da sociedade”. Ou seja, essa classe teria uma capacidade especial de perceber anseios e necessidades de uma comunidade antes mesmo que as pessoas se dessem conta disso.

No editorial de hoje, muito pretensiosamente, quero defender que essa comparação também se aplica à curadoria de conteúdo, ou seja, à escolha dos assuntos que serão abordados aqui no Mega Curioso e nos outros sites do Grupo NZN. Afinal, ainda existe espaço para editores humanos em uma área cada vez mais automatizada?

Dos poetas à Apple: humanos são essenciais

Esse conceito das “antenas da sociedade” (ou “da raça”, em tradução direta) foi cunhado em 1920 pelo escritor, músico e crítico literário americano Ezra Pound (1885-1972). Na ocasião, Pound estava se referindo principalmente aos poetas, que teriam uma habilidade quase sobrenatural de captar indícios de que algo maior está prestes a acontecer.

Mais tarde, em 1969, o filósofo e teórico da Comunicação Marshall McLuhan ampliou essa ideia: mais do que antenas, os artistas seriam como radares e conseguiriam prever mudanças sociais e tecnológicas com uma ou duas gerações de antecedência. Assim, dando voz aos artistas, que seriam uma espécie de “sistema de alarme premonitório”, a sociedade poderia se preparar a tempo para as grandes mudanças – para o bem ou para o mal.

No ramo editorial, no qual eu trabalho, existe uma discussão parecida que remete a essa ideia das antenas e radares: com todos os algoritmos capazes de rastrear as preferências dos usuários de um site, ainda precisamos de pessoas fazendo a curadoria de conteúdo? Será que o trabalho “artesanal” feito por um editor humano tem algo a acrescentar aos dados fornecidos por robôs?

"Será que os leitores vão gostar dessa matéria?", pensa a pessoa que tirou a foto

Sendo muito pretensiosa por me comparar a algoritmos e aos grandes artistas referidos por Pound e McLuhan, respondo às duas perguntas: sim, precisamos de pessoas, e sim, humanos ainda têm o que acrescentar aos processos automatizados do meio editorial. Claro, quando se leva em consideração a curadoria de conteúdo digital de um site sobre curiosidades, não estamos mais falando em prever mudanças sociais. Em vez disso, trata-se de antecipar o que o público gostaria de ler – algo bem menos sublime do que Pound imaginava.

Para ninguém achar que estou puxando brasa para a minha sardinha (só um pouquinho!), devo dizer que estou muito bem acompanhada nessa linha de pensamento: este ano, quase um século depois da ideia das antenas, a Apple anunciou que está em busca de editores humanos para trabalhar em um novo app de notícias.

“Os editores devem ter instinto aguçado para encontrar breaking news, mas devem ser igualmente capazes de reconhecer histórias originais e chamativas que dificilmente seriam identificadas por algoritmos”, diz o anúncio da vaga. Ou seja, em pleno 2015, uma empresa mundialmente reconhecida e que é sinônimo de tecnologia e inovação prefere não depender exclusivamente de sistemas automatizados para fazer sua curadoria de conteúdo.

Intuição x Algoritmo

Apesar de já existirem ferramentas excelentes capazes de detectar o que está em alta na internet neste exato momento, há algumas coisas que só os editores conseguem fazer, conforme elencou Eli Pariser no site Harvard Business Review. E a primeira habilidade listada exclusivamente humana (até agora) é antecipar o que ainda vai se tornar tendência.

Podemos tomar como exemplo o Furacão Patricia, que foi considerado o mais forte da história. No dia 23 de outubro, quando se esperava que o fenômeno atingisse com força extrema a Costa Oeste mexicana, a expressão “furacao mexico” não era uma recordista de buscas no Google até o meio-dia. Entretanto, a experiência da equipe de Conteúdo permitiu antecipar que os leitores iriam se interessar pelo assunto, o que me fez selecionar essa pauta (obrigada pela dica, Tayara!). Dito e feito: em mais ou menos quatro horas, a matéria passou das 100 mil visualizações, atingiu 1,7 milhão de pessoas no Facebook e se tornou a mais clicada do dia.

A busca "furacao mexico" só se tornou tendência depois que publicamos a matéria. Fonte: Google Trends

Além dessa habilidade estilo “bola de cristal”, Pariser levantou algo que, definitivamente, os algoritmos não fazem: correr riscos. Por exemplo, no mês passado, chegou ao WhatsApp de alguém aqui do Grupo NZN o até então desconhecido “Mellot do DragonBall”, um clipe em “homenagem” a Goku que simplesmente não pode ser descrito em palavras.

Um algoritmo bem programado que se preze jamais selecionaria um material assim, pois não se tratava de algo “quente” na internet – portanto, não seria detectado. Porém, nosso vice-presidente de Conteúdo, o Gus, que até onde eu sei é humano, teve o feeling de que o clipe faria sucesso, desde que se fizesse uma abordagem adequada aos leitores (afinal, o risco de rejeição era grande). Resultado: a publicação no Facebook atingiu 24 milhões de pessoas, ou seja, 12% da população brasileira.

Outra habilidade citada por Pariser na qual os editores se saem melhor é a “visão do todo”, pois os algoritmos ainda não são tão bons na hora de escolher as matérias que devem ocupar a página principal de um site. Ainda na semana passada tive uma situação assim: das seis principais histórias do dia, as cinco mais relevantes, de acordo com nossa ferramenta de medição de visitas, coincidentemente falavam sobre morte.

Mega Cemitério: achei que vocês não iriam gostar!

Se considerássemos apenas o algoritmo, os leitores se deparariam com um cemitério em forma de site! Porém, como humana, minha vantagem é ter empatia com o público, então optei por mesclar as matérias indicadas pela ferramenta com outras que também pudessem ser interessantes, mas que dessem uma aliviada no “clima macabro”.

Quem leva a melhor?

Conforme explica Amanda Walgrove, no site Contently, “o editor humano é um leitor, alguém que responde emocionalmente a cada história” – e isso ainda não é uma capacidade dos algoritmos. Ao mesmo tempo, sem os algoritmos estaríamos ignorando uma série de informações imprescindíveis no processo de curadoria de um site, como descobrir o que atrai os leitores, o que os espanta e o que retém sua atenção.

A partir disso, fica fácil responder: leva a melhor o site que conseguir unir os dados fornecidos pelos algoritmos com o feeling e a empatia do editor. Ou seja, trata-se de uma combinação entre a melhor ferramenta e a melhor pessoa capaz de interpretá-la e enxergar além do que os códigos oferecem.