Em virtude dos tristes acontecimentos dos últimos dias, o hino nacional francês praticamente se transformou no hino do mundo inteiro. Além de ser tocado e repetido em vários países, pessoas das mais diversas nacionalidades estão unindo suas vozes às dos franceses neste momento de dor e perplexidade.

Ontem mesmo mais de 70 mil torcedores entoaram juntos La Marseillaise no Estádio de Wembley, em Londres, durante um amistoso de futebol que ocorreu entre a seleção da França e da Inglaterra. Veja:

No entanto, além de ser muito bonito e conhecido, você sabe o que La Marseillaise representa e por que ele vem sendo cantado com tanto fervor? De acordo com a BBC, o hino foi composto pelo capitão do exército francês Claude Joseph Rouget de Lisle em 1792, depois que tropas da Prússia e Áustria invadiram a França com o propósito de reprimir a Revolução Francesa.

Chant de guerre

Originalmente, o hino recebeu o nome de Chant de guerre pour l'armée du Rhin (ou Canto de Guerra para o Exército do Reno) e foi criado para instigar os soldados franceses a lutar em defesa de seu país. Entoada pelas tropas que chegavam a Paris vindas de Marseilles — foi daí que a composição ganhou o apelido de La Marseillaise —, a música foi adotada como hino nacional da França em 1795.

O hino, na realidade, é um canto militar pra lá de inflamado, composto por uma letra um tanto quanto sanguinária. Entre as frases, Rouget de Lisle incluiu trechos como “Avante, filhos da Pátria”, “O estandarte ensanguentado se ergueu”, “Vêm eles até os vossos braços degolar vossos filhos, vossas mulheres”, “Às armas, cidadãos, formai vossos batalhões” e “Que um sangue impuro banhe o nosso solo”.

No entanto, apesar da popularidade da música entre os franceses, Napoleão Bonaparte destituiu a composição enquanto esteve no poder e, mais tarde, durante a Restauração Francesa, La Marseillaise continuou guardado na gaveta. Isso até que, na época da Terceira República Francesa — período que durou de 1870 a 1940 —, o canto de guerra voltou a se tornar hino nacional.

Canto do povo

De acordo com David Walker, professor emérito de francês na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, nem todos os franceses curtem a letra militar do hino. Esse era o caso de Valery Giscard d'Estaing, que foi presidente da França entre 1974 e 1981 e achava que a música era belicosa demais. Inclusive há quem critique a composição, dizendo que o trecho “que um sangue impuro banhe o nosso solo” pode remeter ao racismo.

Por outro lado, a verdade é que pouca gente dá atenção às minúcias da letra, e La Marseillaise, em vez de ser considerado como um chamado à batalha, é tido como um poderoso canto de desafio e resistência. Ao contrário de muitos hinos que existem pelo mundo, o francês não é uma música sobre a aristocracia, mas sim sobre os cidadãos, sobre o povo.

Além disso, sua composição é arrebatadora e apaixonada, e a música foi entoada com impetuosidade durante vários momentos importantes da história da França. Sendo assim, nada melhor do que cantar La Marseillaise para despertar, mais uma vez, o sentimento de solidariedade e coragem face ao perigo — e não só no povo francês, mas em todo o mundo.

Letra e tradução

Confira a letra completa e a tradução de La Marseillaise:

Allons enfants de la Patrie,Avante, filhos da Pátria,
Le jour de gloire est arrivé!O dia da Glória chegou!
Contre nous de la tyrannie,Contra nós a tirania,
L'étendard sanglant est levé, (bis)O estandarte ensanguentado se ergueu.(bis)
Entendez-vous dans les campagnesOuvis nos campos
Mugir ces féroces soldats?Rugir esses ferozes soldados?
Ils viennent jusque dans vos brasVêm eles até os vossos braços
Égorger vos fils, vos compagnes!Degolar vossos filhos, vossas mulheres!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons!Marchemos, marchemos!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchez, marchez!Marchai, marchai!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Que veut cette horde d'esclaves,O que quer essa horda de escravos,
De traîtres, de rois conjurés?De traidores, de reis conjurados?
Pour qui ces ignobles entraves,Para quem (são) esses ignóbeis entraves,
Ces fers dès longtemps préparés? (bis)Esses grilhões há muito tempo preparados? (bis)
Français, pour nous, ah! quel outrageFranceses, para nós, ah! que ultraje
Quels transports il doit exciter!Que comoção deve suscitar!
C'est nous qu'on ose méditerÉ a nós que ousam considerar
De rendre à l'antique esclavage!Fazer retornar à antiga escravidão!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons!Marchemos, marchemos!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchez, marchez!Marchai, marchai!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Quoi! des cohortes étrangèresO quê! Tais multidões estrangeiras
Feraient la loi dans nos foyers!Fariam a lei em nossos lares!
Quoi! ces phalanges mercenairesO quê! Essas falanges mercenárias
Terrasseraient nos fiers guerriers! (bis)Arrasariam os nossos nobres guerreiros! (bis)
Grand Dieu! par des mains enchaînéesGrande Deus! Por mãos acorrentadas
Nos fronts sous le joug se ploieraientNossas frontes sob o jugo se curvariam
De vils despotes deviendraientE déspotas vis tornar-se-iam
Les maîtres de nos destinées!Os mestres dos nossos destinos!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons!Marchemos, marchemos!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchez, marchez!Marchai, marchai!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Tremblez, tyrans et vous perfidesTremei, tiranos! e vós pérfidos,
L'opprobre de tous les partis,O opróbrio de todos os partidos,
Tremblez! vos projets parricidesTremei! vossos projectos parricidas
Vont enfin recevoir leurs prix ! (bis)Vão finalmente receber seu preço! (bis)
Tout est soldat pour vous combattre,Somos todos soldados para vos combater.
S'ils tombent, nos jeunes héros,Se tombarem os nossos jovens heróis,
La terre en produit de nouveaux,A terra novos produzirá,
Contre vous tout prêts à se battre !Contra vós, todos prestes a lutarem!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons!Marchemos, marchemos!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchez, marchez!Marchai, marchai!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Français, en guerriers magnanimes,Franceses, guerreiros magnânicos,
Portez ou retenez vos coups!Levai ou retende os vossos tiros!
Épargnez ces tristes victimes,Poupai essas tristes vítimas,
À regret s'armant contre nous. (bis)A contragosto armando-se contra nós. (bis)
Mais ces despotes sanguinaires,Mas esses déspotas sanguinários,
Mais ces complices de Bouillé,Mas esses cúmplices de Bouillé,
Tous ces tigres qui, sans pitié,Todos os tigres que, sem piedade,
Déchirent le sein de leur mère !Rasgam o seio de suas mães!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons!Marchemos, marchemos!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchez, marchez!Marchai, marchai!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Amour sacré de la Patrie,Amor Sagrado pela Pátria
Conduis, soutiens nos bras vengeursConduz, sustém nossos braços vingativos.
Liberté, Liberté chérie,Liberdade, liberdade querida,
Combats avec tes défenseurs ! (bis)Combate com os teus defensores! (bis)
Sous nos drapeaux que la victoireDebaixo as nossas bandeiras, que a vitória
Accoure à tes mâles accents,Chegue logo às tuas vozes viris!
Que tes ennemis expirantsQue teus inimigos agonizantes
Voient ton triomphe et notre gloire !Vejam teu triunfo e nossa glória.
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons!Marchemos, marchemos!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchez, marchez!Marchai, marchai!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
(Couplet des enfants)(Verso das crianças)
Nous entrerons dans la carrière,Entraremos na carreira (militar),
Quand nos aînés n'y seront plus,Quando nossos anciãos não mais lá estiverem.
Nous y trouverons leur poussièreLá encontraremos suas cinzas
Et la trace de leurs vertus (bis)E o resquício das suas virtudes (bis)
Bien moins jaloux de leur survivreBem menos desejosos de lhes sobreviver
Que de partager leur cercueil,Que de partilhar seus caixões,
Nous aurons le sublime orgueilTeremos o sublime orgulho
De les venger ou de les suivre.De vingá-los ou de segui-los.
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons!Marchemos, marchemos!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!
Aux armes, citoyens,Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons,Formai vossos batalhões,
Marchez, marchez!Marchai, marchai!
Qu'un sang impurQue um sangue impuro
Abreuve nos sillons!Banhe o nosso solo!

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