Nenhuma pessoa branca vai poder falar sobre racismo um dia com a devida propriedade, afinal brancos não são alvo de racismo. Ainda assim, muitos insistem em dizer que racismo é coisa do passado, que não existe desde a abolição da escravatura ou, pior ainda, que existe racismo reverso que, como bem disse Djamila Ribeiro, é o mesmo que acreditar em unicórnios.

Em seu texto, Djamila explica o óbvio de que tantas vezes nos esquecemos: racismo é uma questão de opressão, sendo essa opressão exercida por meio de poder. Historicamente, negros sofrem por causa de sistemas de opressão das mais diversas formas, e isso ocorre – sim, em tempo presente – em todo o mundo, com muito mais frequência do que deveria.

É comum ouvirmos que determinadas atitudes opressoras – racistas, transfóbicas, homofóbicas, lesbofóbicas, gordofóbicas, misóginas – “ainda acontecem em pleno século 21”, mas a verdade é que a modernização da humanidade não é capaz, por si só, de criar padrões ideais de comportamento, respeito e execução de direitos. Uma das provas de que estar em 2016 não nos livra do racismo de cada dia e de que o racismo existe, sim, é publicação de Débora Figueiredo.

“Olá! Mamãe Débora”

O bilhete enviado pela coordenadora da escola

Em seu perfil no Facebook, Débora publicou uma foto de um bilhetinho enviado pela coordenadora da escola onde seus dois filhos estudam: “Como eu gostaria que meus filhos não passassem por nenhum tipo de preconceito, como eu gostaria de protege-los desse mundo cruel, como eu gostaria de afastar gente ruim travestido de bonzinhos antes que eles tivessem o desprazer de ter contato. Meus filhos Antônio e Benício foram vítimas de preconceito por causa do cabelo deles, recebi essa mensagem na agenda escrita pela coordenadora da escola que até então tinha meu despeito, daqui em diante... Eu não posso protege-los de tudo, mas sempre vou lutar por eles (sic)”.

Possivelmente, muitas pessoas dirão que a coordenadora pediu apenas para que a mãe “arrumasse” os cabelos das crianças, mas a questão é que o cabelo afro é essencialmente formado por cachos, ondas e volume. O que há de errado nisso, afinal de contas?

Padronizar questões estéticas, independente de quais forem, já é um ato opressivo e cruel, posto que geralmente são padrões inalcançáveis pela maioria das pessoas, mas padronizar questões estéticas de modo que elas acabem suprimindo as características de determinado tipo de raça é o quê? Racismo.

Eu, redatora branca

Ilustração de Junior Cohen

Como disse no início deste texto, que é opinativo, jamais saberei o que é racismo, simplesmente porque sou branca e não sei como é ser seguido por seguranças em uma loja ou como é ver alguém puxando a bolsa mais para perto quando entro em um ônibus. Nunca pediram para tocar em meu cabelo como se eu fosse alguma atração circense. Nunca me compararam a um macaco nem me mandaram voltar para a senzala. É por não ter passado por esse tipo de situação que meu conhecimento sobre o tema não é totalmente prático, daí a afirmação inicial de que pessoas brancas não podem falar de racismo com total propriedade.

Por isso, o que faço é buscar não apenas respeitar, mas ouvir pessoas como a já citada Djamila Ribeiro, que tem um currículo admirável e fala sobre questões raciais com propriedade pessoal e acadêmica. Deixar de lado consensos como o irreal “racismo reverso”, estudar mais as questões históricas da escravatura, ler relatos de pessoas que viajaram em navios negreiros e buscar entender como a abolição deu início a um sistema desigual e separatista em termos urbanos e sociais é uma boa maneira de tentar mudar a situação e não comentar apenas o absurdo que é observar esse tipo de atitude, como o bilhete recebido por Débora, “em pleno 2016”.

Como você se sentiria se estivesse no lugar de Débora ou, ainda, no lugar dos filhos dela, que são apenas crianças e não deveriam ter esse tipo de repressão em um ambiente escolar?