Todo mundo já ouviu as histórias sobre o Conde Drácula, não é mesmo? O personagem se tornou incrivelmente popular graças ao sinistro livro de Bram Stoker, lançado em 1897, e ele inclusive chegou a ser inspirado em uma pessoa real, Vlad, o Empalador, um príncipe meio do mal que tocou o terror durante o século 15 na Valáquia, uma província da Romênia.

Só que Vlad, apesar de ser um tanto quanto sádico — afinal, ele não ficou conhecido como “o Empalador” por ser bonzinho —, não tinha costume de beber o sangue de ninguém, não. O que ele fazia às vezes era drenar todo o sangue de vítimas empaladas com um ferimento do pescoço, e Stoker deve ter se baseado nisso para criar o mito do vampiro.

Vlad, o Empalador

Curiosamente, embora o vampiro mais emblemático da História tenha sido inspirado em um personagem que, definitivamente, não tinha nada de vampiresco, o primeiro caso documentado sobre um suposto “bebedor de sangue” na Europa aconteceu em um vilarejo da Croácia chamado Kringa, em 1672, ou seja, dois séculos antes de o romance de Stoker ser publicado.

A lenda de Jure Grando

Não existem muitas informações sobre Grando em vida, mas se sabe que ele era um mero camponês do pacato vilarejo de Kringa casado com uma das habitantes do local — e algumas fontes alegam que ele não era especialmente querido pela população. Foi só depois de sua morte, em 1656, que ele ganhou notoriedade, porque, aparentemente, após ser devidamente sepultado, Grando começou a assombrar a cidadezinha.

Lápide atual de Jure Grando

Segundo a lenda, Grando foi enterrado no cemitério local com as bênçãos do padre de Kringa, um homem chamado Giorgio. Só que, pouco tempo depois, começaram a surgir relatos de que o defunto saía de sua tumba pelas noites e perambulava pelo vilarejo — e que ele inclusive batia às portas de algumas casas em suas visitas noturnas. Para piorar, os habitantes acreditavam que as batidas indicavam que um dos residentes morreria em breve.

O mais incrível é que os avistamentos de Grando, o morto-vivo, duraram por nada menos do que 16 anos, e inclusive sua esposa teria garantido ter visto o defunto em diversas ocasiões! De acordo com a viúva, ele costumava aparecer na janela de seu quarto à noite com um sorriso macabro nos lábios e teria abusado dela várias vezes.

Lenda transcendental

Curiosamente, segundo um historiador da época, Johann Weichard von Valvasor, os habitantes da região de Kringa acreditavam na existência de criaturas conhecidas como “strigoi” — que se alimentavam do sangue de criancinhas e se dedicavam a lançar feitiços e vagar pelos vilarejos por volta da meia-noite.

Antigo vilarejo de Kringa

Esses seres ainda tinham o hábito de bater às portas de algumas casas, o que indicava que um dos moradores deixaria o mundo dos vivos em alguns dias, sem falar na sua habilidade de se aproximar sorrateiramente das camas dos camponeses e dormir com suas mulheres. Também de acordo com a crença local, os strigoi eram chegados às viúvas, especialmente se elas fossem belas e jovens. Soa familiar?

Ninguém sabe dizer ao certo se essa lenda inspirou o medo que todos nutriam contra Grando ou, se ao contrário, o historiador se baseou nos boatos sobre o defunto para escrever seu relato a respeito dos strigoi. O fato é que, após viver 16 anos aterrorizada, a população de Kringa decidiu partir para a ação.

Demorou!

Assim, em 1672, o prefeito de Kringa, Miho Radetic, resolveu reunir um grupo de homens e caçar o espectro. Eles invadiram o cemitério, abriram a tumba de Grando e quase morreram de susto ao constatar que seu corpo permanecia intacto — o que teria confirmado a suspeita de que o defunto era mesmo um vampiro.

Então, primeiro foi a vez de o Padre Giorgio tentar confrontar a criatura com um crucifixo e invocando o nome de Deus, mas o objeto não surtiu qualquer efeito contra Grando. Depois, um dos integrantes do grupo teria tentado cravar uma estaca no peito do defunto, só que a madeira simplesmente não penetrava o cadáver.

Lenda, boatos e realidade se misturam

Por fim, alguém agarrou um machado e decapitou o morto, e todos testemunharam Grando soltar um longo grito e assistiram ao seu pescoço jorrar sangue para todos os lados. O defunto foi novamente enterrado e, segundo dizem, nunca mais foi visto rondando o vilarejo.

Entretanto, de certo modo, Grando continua vivo até os dias de hoje, já que, além de ser parte integrante da história local — e de ter protagonizado o primeiro caso de vampirismo registrado no mundo —, ele se transformou em uma importante fonte renda na cidadezinha, atraindo turistas e curiosos a Kringa.

*Publicado em 13/10/2016