A jornalista e escritora Eliane Brum publicou um texto recentemente analisando a questão dos portadores de ebola de uma maneira bem diferente da escolhida pela mídia no mundo todo. Indo contra as primeiras reações de todos com relação ao temido vírus, Eliane fez uma das coisas que faz de melhor: colocou-se no lugar do próximo e expôs o outro lado da história, tão desumana com aqueles que acabam adquirindo a doença.

Você já parou para pensar como se sentiria se estivesse com ebola e se, de repente, de uma hora para a outra, as pessoas ao seu redor olhassem para você com expressões de medo, de repúdio e de nojo? Para piorar a situação, seu rosto estaria estampado nas capas de jornais e, acima da sua testa, um letreiro com a palavra "ameaça" escrita. Apesar de ser um perigo relativamente novo, será que ninguém pensou em tratar os doentes com um pouco mais de humanidade? Afinal de contas, se você tem medo quando pensa no ebola, imagina o medo que um portador do vírus sente...

Seguindo a mesma lógica da Eliane, mas de uma forma um pouco distinta, o Smithsonian também resolveu abordar o ebola por um viés diferente daquele adotado pela mídia assustada que antecipa tragédias e pela sociedade cruel que trata pacientes como se fossem números que precisam ser enterrados.

Reações

Se no Brasil as reações com os casos suspeitos da doença trouxeram à tona uma série de comentários xenófobos e de raiva, nos EUA a coisa não foi muito diferente e, talvez como disse Eliane, a xenofobia parece ser um “vírus que nos consome há muito mais tempo”.

No Texas, uma instituição de ensino resolveu criar e anunciar uma nova regra: “A Navarro College não está aceitando estudantes internacionais de países onde casos de ebola foram confirmados”. A regra nova já teria sido até aplicada, afinal um intercambista nigeriano teve sua matrícula recusada – ainda que a doença não tenha atingido a Nigéria.

No condado de Dekalb, no estado norte-americano da Georgia, as autoridades locais ameaçaram cortar a rede de esgoto da Universidade de Emory, que enviou dois pacientes suspeitos da doença para o hospital local. Já pensou na arbitrariedade da coisa?

Já o Daily Caller publicou uma notícia bizarra a respeito de uma senhora que teria embarcado em uma viagem de avião com vestimentas de proteção Hazmat – incluindo o macacão, uma máscara e luvas. O aeroporto em questão foi Internacional de Dulles, em Washington, DC, e a "moda" tem de tudo para pegar, o que é ótimo para os negócios.

Oportunidade

Outro veículo de comunicação dos EUA, o Business Insider, específico para a divulgação de conteúdos sobre o mundo dos negócios, fez uma matéria sobre o mercado de roupas de proteção, que será um ótimo ramo para investimentos uma vez que suas ações estão cada vez mais em alta. Quando convém, o ebola é uma oportunidade e tanto!

O dono do site ebola.com parece ter enxergado na doença a sua chance de se dar bem. Ele agora quer vender o domínio da página pela bagatela de US$ 150 mil – a venda tem que ser feita logo, segundo o dono, pois ele pode sair prejudicado caso o assunto saia do foco nas próximas semanas ou caso algum tratamento médico mais eficiente acalme os ânimos – a cura do ebola, por exemplo, seria uma péssima notícia a esse cara. E, como o Halloween está se aproximando, outra oportunidade de negócio: já tem gente sugerindo a “fantasia de ebola”. Nesse caso tudo bem se colocar no lugar do outro, é isso?

Segundo Eliane Brum, no texto que usamos como exemplo hoje, a exposição de pacientes suspeitos de ebola, a divulgação de seus nomes e a difusão da ideia de que, como disse um ator há alguns dias, pacientes com ebola são dignos de “pena e reclusão da sociedade” são fatores que mascaram o preconceito existente atrás do que defendemos como medida sanitária. E você? Reagiu como quando soube dos casos suspeitos da doença aqui no Brasil? Se você fosse um desses pacientes, como gostaria de ser tratado? Eis um bom exercício de empatia.