Às vezes, para entendermos melhor uma situação, devemos nos colocar no lugar do outro. Esse exercício, chamado de empatia, é capaz de nos livrar de amarras e preconceitos antigos – sempre bom lembrar que não há problema algum em mudar de opinião, ainda mais se isso significar fazer o bem para alguma pessoa.

O fato é que a doação de órgãos ainda é um assunto pouco discutido e, pior ainda, pouco pensado. Se a única certeza que temos nessa vida é a de que vamos morrer, por que não avisar amigos e familiares a respeito de nossa posição sobre o tema? Para quem tem morte cerebral e bom estado de saúde, a vida pode não acabar e continuar por meio do transplante dos órgãos.

O The Washington Post contou, recentemente, a história emocionante de um jovem de 25 anos, Kendrick Murray, que morreu em setembro de 2015 depois de ter uma crise epilética no trabalho e, com a queda, ferir gravemente a cabeça. Durante uma semana ele ficou internado, e chegou até a mexer os músculos do rosto quando sentiu o toque de sua mãe, Adrian Murray. Infelizmente, o jovem não resistiu e Adrian se viu diante não apenas da perda do filho, mas da decisão de doar os órgãos dele.

Respeitando o desejo do filho

Kendrick Murray

Para sua surpresa, Adrian descobriu que o filho já tinha declarado que seria doador de órgãos e, por isso, ela resolveu atender a vontade dele. Na ocasião, Adrian se lembrou de que o filho havia comentado sobre o estado de saúde do pastor da igreja que a família frequentava, Michael Minor – ele teve falha renal em decorrência da diabetes. Quando Kendrick morreu, Minor já estava com os rins praticamente sem funcionar e só um transplante salvaria sua vida.

Nesse momento, Adrian não estava em condições de contribuir financeiramente com a igreja, como sempre fazia. Foi então que ela guardou o envelope dos donativos na bolsa e pensou que, quando pudesse, faria sua contribuição. Nesse momento, uma coisa levou à outra e Adrian foi para o hospital, onde colocou o nome do pastor no cadastro de doação dos órgãos do filho – nos EUA, é possível indicar os receptores dos órgãos doados. Em poucas horas, o pastor já tinha feito a cirurgia.

Depois de saber que o rim do filho estava agora funcionando no corpo do pastor, Adrian sentiu vontade de conhecer as outras pessoas que haviam recebido os outros órgãos do filho – ela só nomeou um doador, os outros foram escolhidos conforme as filas de espera –, mas o que ela queria mesmo era saber com quem estava o coração de Kendrick.

Surpresa

Adrian abraça o pastor que recebeu o rim do filho.

“Ele foi meu primeiro filho, meu braço direito”, declarou a mãe, emocionada. “Eu queria saber onde o coração do meu filho estava batendo. Isso me daria paz”.

Aos domingos, a família de Adrian se reúne em jantares comunitários e, no mesmo mês da morte do filho, ela reparou que uma de suas primas, Clintoria Johnson, chegou ao jantar com tubos de oxigênio, mas Adrian não sabia o que estava acontecendo nem tinha perguntado nada, já que Clintoria sempre foi uma pessoa bastante reservada.

O que ela não sabia era que, na verdade, a prima tinha passado por sérios problemas cardíacos e esperou por um transplante de coração por dois anos. A situação era tão grave que Clintoria estava quase sendo internada para que seu coração ficasse batendo mecanicamente. Acontece que um dia após a morte de Kendrick, ela recebeu a tão esperada ligação, dizendo que havia um coração disponível para transplante.

Adrian ligou uma informação à outra e começou a achar que o coração do filho estava muito mais perto do que ela poderia imaginar. Como ela não havia estipulado um destinatário para receber o órgão, precisaria abrir um processo burocrático para descobrir se sua prima estava realmente com o coração do filho. A questão é que nem Adrian nem Clintoria sabiam quem tinha sido o doador.

Em família

O coração de Kendrick continua na família de Adrian!

Depois de preencher um cadastro na agência de doações de órgãos responsável pelo procedimento, Adrian recebeu uma carta na véspera do dia em que Kendrick completaria 26 anos. O documento dizia que a pessoa que havia recebido o coração de seu filho se chamava Clintoria Ann Johnson.

Para Adrian, a alegria de saber que o coração do filho continuava, ainda que de maneira não planejada, em sua família, foi reconfortante e emocionante. A partir daí, ela passou a procurar as outras pessoas que receberam os órgãos do filho: “Eu apenas quero abraçá-los. Apenas senti-los colocarem seus braços ao redor de mim, isso me mostraria que meu filho ainda está aqui”, explicou.

Ela acredita que a morte do filho a une a essas pessoas de alguma forma, e seu desejo é conhecê-las assim que puder. Até lá, Adrian se dedica a fazer campanhas em prol da doação de órgãos – e ninguém melhor do que a mãe de um doador para nos lembrar da importância que é pensar sobre o tema e avisar aqueles de nosso convívio sobre a nossa vontade.

Obviamente, Adrian sente saudade do filho e pensa nele com frequência. “Eu fico triste? Sim, eu fico triste ocasionalmente. Mas eu estou apenas feliz por outras pessoas estarem vivendo e a tendo a chance de ter uma vida produtiva”, resumiu ela sobre a experiência. Agora nos conte: você é doador de órgãos? Já falou sobre o assunto com seus amigos e familiares?