Talia Jane é apenas mais uma jovem que, já familiarizada com o mercado de trabalho, vê suas expectativas de criança indo pelos ralos. Aos 25 anos, ela trabalhava como atendente de um aplicativo de delivery de comida, que faz parte da Yelp, em São Francisco, nos EUA.

Graduada em Literatura Inglesa, a jovem se viu trabalhando em uma área diferente da desejada e recebendo um salário baixo, de US$ 8 por hora. Quando começou a trabalhar na empresa, a ideia era a de, com o passar do tempo, mudar de posição.

Inconformada com o salário que não a possibilita encher a geladeira e em uma noite com apenas arroz para comer, Talia usou o Twitter para mandar recados ao CEO da Yelp, Jeremy Stoppelman. Em seguida, ela escreveu um grande desabafo que foi publicado no Medium.

"Quando eu era criança, lá nos anos 1990, a mesma época em que as Spice Girls e ganhar um pager eram o máximo, eu sonhava em ter um carro, um cartão de crédito e meu apartamento. Aos 8 anos de idade, eu disse para mim que isso é significado de ser adulto. Agora, dezessete anos depois, eu tenho essas coisas. Mas, cara, o que eu não sabia há uma década e meia é que um carro, um cartão de crédito e um apartamento seriam símbolos de estresse, não de sucesso", diz o começo da publicação.

Ela explica, no texto, que foi morar em São Francisco para viver perto do pai e que começou a trabalhar com telemarketing no mesmo dia em que fez a entrevista, certa de que, em pouco tempo, conseguiria uma função melhor dentro da Yelp. Depois de fazer a mudança e de se endividar por causa dela, Talia foi informada de que deveria trabalhar com atendimento por no mínimo 1 ano antes de saber se teria como mudar de função.

Ao longo da carta, ela explica que seus colegas de trabalho estão todos tendo dificuldades financeiras, e que alguns precisam arrumar outros empregos para conseguir pagar as contas. Ela diz também que a empresa não distribui lanches suficientes para que seus funcionários possam trabalhar sem estar com fome. De acordo com Talia, ela simplesmente não tem dinheiro para comprar comida.

"Pão é um luxo para mim, ainda que vocês tenham uma geladeira cheia de pão no 8º andar, mas nós não temos como levar nada disso para casa porque é para comer no trabalho, o que eu faço muito, porque 80% da minha renda vai para pagar meu aluguel. Isso não é irônico? A funcionária do seu aplicativo de delivery que você gastou US$ 300 milhões para comprar não tem dinheiro para comprar comida", disse ela.

Em seguida, Talia falou a respeito dos benefícios da empresa, mas disse que precisa pagar US$ 20 a cada vez que usa seu plano de saúde, o que é um problema, já que é pagar essa fatura ou ter dinheiro para ir ao trabalho.

Em seu desabafo, Talia conta que paga US$ 1.245 de aluguel em um apartamento que fica a quase 50 km de distância do seu local de trabalho, pois era o lugar mais barato e com acesso a trem – detalhe: só com transporte ela gasta US$ 11,30 por dia. Não dá para se esquecer das contas de gás e de energia elétrica, que somam em média US$ 120 por mês.

"Você já bebeu 1 litro de água antes de ir para cama para que você pudesse dormir sem acordar depois de algumas horas com dores de estômago porque a última vez que você comeu foi no trabalho? Eu acordei hoje com dores de estômago. Eu preparei uma tigela de arroz."

Talia fala, ainda, a respeito das sugestões que deu para o corte de gastos na empresa, que poderia economizar US$ 24 mil em dois meses apenas deixando de comprar água de coco.

"Enfim, esses são meus pensamentos. Sei que eles não valem o seu tempo – você sabia que o americano médio ganha dinheiro o suficiente, de modo que o tempo que ele gastaria pegando uma moeda de 1 centavo custa mais do que a moeda em si? Eu pego cada centavo que vejo, o que acredito que explica por que dividir esses pensamentos vale o meu tempo, ainda que não valha o seu."

Depois do fim da carta, uma atualização: Talia foi demitida de seu emprego. No Twitter, ela comentou o ocorrido: "Eu amei ter sido demitida por bradar que não tenho condições de pagar meu aluguel, isso resolve todos os meus problemas!". De acordo com ela, a decisão partiu "de cima", já que sua gerente disse que não estava ciente da demissão.

A carta de Talia viralizou e foi compartilhada inúmeras vezes, e o diretor-executivo da Yelp resolveu comentar o caso. Pelo Twitter, ele disse ter lido a carta de Talia, mas afirmou que não tem relação com a demissão da funcionária, destacando que toda história tem dois lados.

Justin Bariso comentou o caso em sua coluna no Inc. Para ele, a carta de Talia pode ter efeitos mais negativos do que ela imaginaria, já que acredita que dificilmente ela vai conseguir um emprego depois de ficar mundialmente conhecida por "chutar o pau da barraca".

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