Quando você pensa em batatas vai logo imaginando uma bela porção de fritas, um pratão de purê ou, quem sabe, uma batatona assada e recheada com os seus ingredientes favoritos? A verdade é que não existem dúvidas de que esse tubérculo é pra lá de versátil, mas sua funcionalidade não se limita apenas à culinária! Afinal, você sabia que uma única batata é capaz de gerar energia suficiente para manter uma lâmpada funcionando por até 40 dias?

Segundo Jonathan Kalan da BBC, uma equipe liderada por Haim Rabinowitch — um pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém — vem trabalhando com batatas com o objetivo de ajudar pessoas sem acesso à rede elétrica. O time se baseou nas experiências de Luigi Galvani que, no século 18, começou a trabalhar com os princípios da bioeletricidade.

Na época, Galvani descobriu que era possível fazer com que as coxas de uma rã se contraíssem depois de conectar dois metais às perninhas do animal, e que essa resposta era produzida por reações químicas. Atualmente, esse mesmo princípio é demonstrado através do uso de vários elementos — no lugar dos pobres sapos! —, e as batatas estão entre as escolhas mais habituais.

Bateria orgânica

Para produzir uma “bateria orgânica”, precisamos de duas chapas de metal — uma que funcionará como ânodo (ou polo negativo) e a outra como cátodo (polo positivo) —, e podemos usar zinco e cobre para isso. Também precisaremos de fios e uma lâmpada de LED, além da batata, é claro. O ácido presente no tubérculo reage quimicamente com os metais, e a liberação de energia ocorre quando os elétrons fluem do cobre para o zinco.

De acordo com Kalan da BBC, os pesquisadores resolveram estudar os tubérculos mais de perto para testar seu poder como fonte de energia. Eles analisaram 20 espécies diferentes de batatas para conferir sua resistência interna e compreender como produzir mais energia.

Os cientistas descobriram, por exemplo, que ferventar os tubérculos por apenas oito minutos produz a quebra de seus tecidos orgânicos que, por sua vez, resulta na redução da resistência e permite que os elétrons fluam com mais facilidade, produzindo mais energia. Além disso, a equipe também descobriu que fatiar as batatas em 4 ou cinco pedaços — e colocar placas de zinco e cobre entre eles — pode aumentar sua eficiência energética em até 10 vezes.

Eureca? Calma lá...

Segundo Kalan, uma única bateria feita de batata seria capaz de gerar energia a um custo estimado em US$ 9 (cerca de R$ 22) quilowatt/hora, ou seja, 50 vezes menor do que a energia produzida por uma pilha alcalina de 1,5 volt — e seis vezes mais barato do que o uso de lâmpadas de querosene. No entanto, se as batatas podem ser utilizadas como fonte de energia economicamente acessível, por que é 1,2 bilhão de pessoas no mundo continuam sem luz elétrica?

Afinal, além de as batatas serem baratas, fáceis de estocar e razoavelmente duráveis, só no ano de 2010, a produção mundial foi de mais de 320 milhões de toneladas. Sendo assim, teoricamente existe batata sobrando para todo mundo, não é mesmo? Bem, na verdade, a questão é mais complexa do que parece...

Eletricidade, comida e valor agregado

Para os pesquisadores, basicamente, o uso das baterias não foi adotado ainda por pura falta de divulgação do projeto junto a organizações e governos de países menos desenvolvidos. Contudo, segundo apontou a BBC, o uso de alimentos para outro fim que não seja o de saciar a fome é uma questão bastante polêmica, e primeiro é necessário avaliar se existem batatas suficientes para a alimentação.

Conforme explicou Olivier Dubois, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o projeto seria impraticável em alguns países, citando o Quênia como exemplo, onde a batata é a segunda fonte de alimento do país, vindo apenas depois do milho. E, além dessas questões, existe ainda o aspecto relacionado com a percepção e o valor que os consumidores agregarão ao uso de tubérculos como fonte de energia.

Afinal, por ridículo que pareça, existe a possibilidade de que as pessoas resistam à ideia de “exibir” aos vizinhos suas belas luminárias feitas com batatas. Mas isso não significa que o projeto deva ser engavetado: já existem estudos relacionados com o uso de alimentos abundantes em determinadas regiões para a criação das baterias orgânicas, e quem sabe os pesquisadores não descubram uma forma de mudar a percepção das pessoas com respeito a essa inovação?