Você já deve ter lido mais de uma vez a respeito das previsões feitas por vários cientistas de renome de que estamos caminhando em direção a uma iminente extinção em massa. Inclusive há quem garanta que a Terra já se encontra em pleno processo de ver milhares de espécies desaparecendo do planeta.

No entanto, em um artigo publicado pelo portal aeon, o escritor Stewart Brand — presidente da Long Now Foundation, cofundador do projeto Revive and Restore e editor do Whole Earth Catalog — garante que não existe motivo para pânico. Segundo ele, não estamos no processo nem prestes a presenciar a tão comentada “Sexta Grande Extinção em Massa”, evento cujas proporções rivalizariam com a extinção que aniquilou os dinossauros há 66 milhões de anos.

De acordo com Brand, as cinco grandes extinções eliminaram cerca de 70% — ou mais — de todas as espécies do planeta em um período relativamente curto de tempo, e as evidências avaliadas por ele apontam que isso não está acontecendo no momento. Pelo contrário: segundo o escritor, a vida está florescendo, e nunca o nosso planeta abrigou tanta diversidade como agora. Segundo ele, embora alguns animais tenham desaparecido, o ciclo continua.

Perdendo o foco

Brand argumenta que o foco atual, voltado para a questão do desaparecimento de inúmeras espécies e o — quase — inevitável progresso para uma nova extinção em massa, pode ser inclusive negativo, e explica que, na verdade, é pouco provável que o planeta passe por esse evento catastrófico, já que várias espécies ameaçadas estão se recuperando.

Ainda de acordo com Brand, também é improvável que todos os animais listados como ameaçados de extinção — e que somam mais de 23 mil espécies — morreriam por conta das mudanças climáticas. Conforme explicou, existe mais de 1,5 milhão de espécies conhecidas no mundo e, em vez de desaparecer por conta do impacto ambiental, elas provavelmente evoluiriam e se adaptariam para sobreviver às novas condições.

Segundo Brand, estudos apontaram que os danos registrados em determinados ecossistemas vem sendo reduzidos, enquanto outros que sofriam com baixa diversidade estão testemunhando um aumento na variedade de espécies. Além disso, o escritor também menciona uma pesquisa recente conduzida pela Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, que concluiu que cerca de 18 mil novas espécies vem sendo descobertas todos os anos.

Esse mesmo estudo também apontou que o ritmo atual de extinção — equivalente a 1% das espécies por década — é bem menor do que o ritmo de descobertas, que é de 3% de novas espécies por década. E mais: a análise de fósseis indica que pelos últimos 200 milhões de anos a biodiversidade do planeta só vem aumentando, e atualmente esse crescimento é o mais alto já registrado.

Iniciativas de sucesso

O escritor discorda das opiniões dos conservacionistas que defendem a ideia de que a ação do homem esteja pondo em risco o desaparecimento de um grande número de espécies. Segundo ele, analisar cada aspecto relacionado com a conservação sob o prisma da extinção não só é simplista e irrelevante, como introduz uma carga emocional que faz com que o problema pareça ainda maior — e sem solução.

Entretanto, as questões conservacionistas devem ser encaradas como desafios pontuais e que podem ser sanados. Nesse sentido, Brand cita as iniciativas conduzidas em inúmeras ilhas espalhadas pelo mundo nas quais existem espécies endêmicas vulneráveis, que incluíram trabalhos voltados para a erradicação de espécies invasivas. Outro exemplo mencionado foi o da recuperação de algumas populações de peixes graças à criação de restrições eficientes.

Brand também explicou que várias áreas estão voltando a ser repovoadas por espécies nativas, como é o caso de lobos, ursos pardos e linces — que estão se espalhando novamente em algumas regiões da Europa. Nos EUA e em outras partes do mundo igualmente existem esforços no sentido de reintroduzir animais em seus antigos habitats, e os frutos dessas iniciativas já estão começando a ser colhidos.

O escritor ainda defende o uso da biotecnologia para prevenir a extinção e, por que não, “reviver” espécies, como os mamutes, por exemplo. Brand argumenta que, assim como a medicina está desenvolvendo técnicas voltadas curar pacientes através de pequenas intervenções em seus genomas, também poderia ocorrer o desenvolvimento de técnicas de conservação baseadas no ajuste do código genético de animais para facilitar sua sobrevivência.

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Stewart Brand acredita que, apesar do pessimismo — e das notícias desfavoráveis e sensacionalistas que vemos por aí — sobre os esforços conservacionistas, o momento é favorável. Embora a impressão seja a de estamos sofrendo derrotas e retrocessos, a verdade é que, considerando um panorama “macro”, a conservação parece estar vencendo a batalha. O que não podemos permitir é que a nossa percepção (negativa) se interponha no caminho do sucesso.

E o fato de Brand descartar a possibilidade de que a Terra está caminhando para uma nova extinção em massa, isso não significa que não existam problemas — nem que eles estejam perto de ser solucionados. No entanto, as questões conservacionistas precisam ser encaradas de forma objetiva e sem pânico.