É comum pensarmos que, antes da eletricidade, as pessoas dormiam assim que escurecia. Seguindo a mesma lógica e aproveitando o fato de que ainda há pessoas que vivem sem luz elétrica, um grupo de pesquisadores resolveu descobrir como elas dormem – os resultados que você vai conferir a seguir foram divulgados pela National Geographic. Será mesmo que a rotina de sono desses indivíduos é tão diferente da de quem tem acesso a todo tipo de tecnologia?

Para descobrir quantas horas dormem algumas das pessoas que não têm acesso à energia elétrica, um grupo de pesquisadores acompanhou a rotina de três tribos isoladas. No final das contas, assim como muita gente de todo o mundo, eles dormem em média 6,4 horas por noite.

Diferente do que poderíamos imaginar, são pessoas que dormem bem depois do pôr do sol e acordam antes de amanhecer. “Ao vermos o mesmo comportamento em três grupos separados por milhares de milhas em dois continentes, ficou claro que esse é um padrão natural”, explicou o responsável pela pesquisa, Jerome Siegel, da Universidade da Califórnia, nos EUA.

A tribo Hadza

Siegel, que é especialista em questões relacionadas ao sono, diz que as pessoas deveriam parar de se preocupar por dormirem menos do que 8 horas por dia: “Se você dorme 7 horas por noite, é perto do que os nossos ancestrais dormiam”.

Não significa, logicamente, que dormir não é fundamental à saúde. Estudos mais antigos já relacionaram falta de horas de sono a doenças do coração e ao ganho de peso, por exemplo. Atualmente, o grande vilão quando o assunto é sono são os celulares, computadores e tablets, que teimamos em levar conosco para a cama. Só para você ter ideia, um estudo recente mostrou que ler um eBook antes de dormir nos faz demorar mais para pegar no sono e nos deixa mais sonolentos quando acordamos, em comparação ao livro impresso.

Com relação à pesquisa de Siegel, a intenção era questionar a ideia de que o que nos faz dormir menos são os estímulos visuais e luminosos provocados pela tecnologia. Em seu estudo, ele avaliou a qualidade de sono dos povos Tsimane, Hadza e San, que estão entre as poucas sociedades que ainda vivem sem energia elétrica, iluminação artificial e controladores de clima. Quando a noite chega, essas pessoas se recolhem em suas casas, que são iluminadas com pequenas fogueiras.

Criança da tribo Tsimane

Siegel pediu para que membros de cada uma das tribos usassem uma espécie de relógio, que nada mais era do que um aparelho que gravava os níveis de iluminação e registrava os movimentos dessas pessoas durante a noite. Outro autor do estudo, Gandhi Yetish, disse que as pessoas da tribo acharam graça do dispositivo, mas usaram porque todos queriam participar da pesquisa.

A análise dos dispositivos permitiu perceber que as pessoas dormem quatro horas, em média, depois do pôr do sol, e acordam geralmente uma hora antes de o Sol nascer. No verão, no entanto, as pessoas do grupo San acordam uma hora depois do nascer do Sol.

Conforme explica Siegel, nosso horário de acordar parece ser determinado em parte pela temperatura ambiente e pela incidência de luz natural, dois fatores praticamente inexistentes nas sociedades modernas.

Garota da tribo San

Outra conclusão interessante do estudo é o fato de que esses povos, ainda que durmam menos do que as tradicionais 8 horas recomendadas de sono, dormem o suficiente, não tiram cochilos durante o dia e não sofrem com problemas como a insônia. Na verdade, Siegel contou que os nativos nem mesmo conseguiram entender a definição de insônia. Para eles, não conseguir dormir é uma ideia inconcebível.

Depois que escurece, as pessoas dessas três tribos se reúnem para comer, conversar, tecer e, inclusive, caçar. Os Hadza definem o período noturno como um momento ideal para meditar a respeito do que foi feito durante o dia, o que se viu, aprendeu e as expectativas para o dia seguinte. Os pesquisadores descreveram as experiências noturnas dessas pessoas como um momento de intimidade, conversa, alegria e dança. É quase uma festa.

O fato é que essas conclusões já estão sendo debatidas por cientistas de todo o mundo. Ao que tudo indica, elas podem nos ajudar a entender melhor a questão do sono das pessoas da Idade da Pedra. Os autores da pesquisa também acham que não precisamos nos preocupar tanto por dormirmos pouco: “devemos relaxar e não devemos segurar a suposição de que tudo fica pior em nossa sociedade moderna”, aconselha o cientista Christoph Nissen. E você, tem dormido bem?