Na diminuta cidade francesa de Gèsvres (população: 532), cerca de 200 km a nordeste de Paris, vive um homem de muitos talentos. Ele esculpe, pinta telas, compõe poesias e canções com a mesma maestria e é também um exímio músico.

Christian Poincheval costumava se apresentar com sua própria banda, Les Poinchevaux, composta por nove membros. Enquanto tocava violão, sua esposa, Éveline, com quem é casado há mais de 40 anos, cantava no grupo.

Mas o mais surpreendente talento do sujeito, que faz todas essas coisas do alto de seus 65 anos, são suas invenções.

Primeiras invenções

Tendo trabalhado com um pouco de tudo ao longo de sua vida, o francês fundou a sua própria rádio e o seu próprio jornal local, L’Aggressif. Graças a esse último negócio é que surgiu a ideia para sua primeira invenção, em 1999: um rolo de papel higiênico com notícias de jornal impressas nele.

Assim, ninguém precisaria lembrar-se de levar alguma coisa para ler enquanto estivesse “meditando”. Por conta desse invento, ele ganhou uma medalha no Concours Lépine, competição de inventores realizada anualmente na França.

Poincheval também criou outro tipo de papel higiênico, que em vez de vir em rolos, como estamos acostumados, são armazenados em pequenas caixas, como as embalagens de lenços que algumas mulheres costumam levar na bolsa. Muito mais discreto e prático, não?

Mas nem tudo o que o homem faz tem a ver com coisas que saem do corpo humano. Ele criou uma espécie de canivete suíço de jardim, com todas as ferramentas necessárias para um bom cultivo de plantas em um só dispositivo. Ainda pensando na natureza, ele também desenvolveu uma embalagem para café ecológica, feita de caixinhas de suco.

Escolha a sua pílula

A sua invenção mais interessante, no entanto, só surgiria após um pesado jantar com amigos que aconteceu em 2004. Por conta da quantidade de comida ingerida durante a refeição e do nível de intimidade entre os presentes, a noite acabou em um festival de gases particularmente fedorentos.

Isso foi o suficiente para acionar as engrenagens na mente do extravagante inventor, que decidiu elaborar uma cura para o mau cheiro da flatulência. Na época, ele já era também um ávido estudioso de remédios homeopáticos e começou a estudar ingredientes que neutralizassem o fedor do pum.

Ao longo de três meses, Poincheval testou diferentes fórmulas com a ajuda de um laboratório de manipulação, chegando finalmente à perfeita combinação de carvão vegetal, erva-doce e outros ingredientes naturais. Ele então passou a comercializar a Pilule Pet – jogo de palavras em francês que basicamente quer dizer pílula do peido, e de que já falamos aqui.

Aromas do campo

Residente há mais de 30 anos de uma área rural do interior da França, o inventor escolheu entre os aromas naturais as fragrâncias de suas primeiras pílulas: rosas e violetas.

Posteriormente, ele expandiu o leque de opções, incluindo o odor de chocolate e, mais recentemente, gengibre. O francês desenvolveu até mesmo uma versão canina de suas pílulas, para aqueles cãezinhos que têm pouco controle sobre seus gases. O único porém é que os comprimidos devem ser ingeridos diariamente e levam uma semana para começar a produzir o efeito desejado.

Poincheval explicou em entrevista ao site The Verge que o objetivo de suas pílulas é acabar com a vergonha que as pessoas sentem ao soltarem gases quando estão à mesa. “Se for possível, eu quero remover o medo que temos de o peido se espalhar demais”, disse.

O importante é o debate

No site em que é vendida a Pilule Pet, há claramente a informação de que isso não se trata de uma droga produzida em laboratório, mas de um simples remédio homeopático. O layout da página e as fotos exageradas já deixam explícito o fato de que as pílulas, apesar de funcionarem, não devem ser pensadas como um tratamento para nenhum tipo de doença.

Para o criador dos puns aromatizados, o que realmente interessa é que as pessoas conversem sobre o assunto, discutam suas implicações, riam disso tudo e mudem sua mentalidade, para que um dia os nossos gases não sejam mais considerados um tabu, mas algo tão natural quanto espirrar ou tossir.

Poincheval já está trabalhando em mais um aroma para incluir nas opções de suas pílulas. Será algo com o cheiro do verão, de acordo com o excêntrico inventor. Parece que o incessante tique-taque das engrenagens dentro da mente desse divertido homem é o que faz com que ele se sinta vivo. “A vida sem isso seria inimaginável”, concluiu ele com um sorriso para o jornalista do The Verge.