Uma situação hipotética de ataque ou imprevisto com os líderes de um país sempre causa dúvidas entre os cidadãos, pois dificilmente as pessoas sabem quem assume o cargo, caso aconteça algo ao presidente e ao seu vice. Em muitas nações, há uma série de nomes que ficam incumbidos de governar em uma ocasião não planejada. Essas pessoas, em ordem de prioridade, constituem a chamada “linha de sucessão presidencial”.

Pois bem, nos Estados Unidos acontece o discurso sobre o Estado da União, evento anual em que o presidente se reúne com os congressistas para falar sobre as condições do país e as propostas legislativas. Esse evento, que ocorre no início do ano, é uma das raras ocasiões em que todos os representantes da linha de sucessão se encontram reunidos no mesmo local.

O presidente Obamaa acena durante o discurso de Estado da União

Aí os cidadãos se perguntam: “e se houver um ataque à capital durante esse episódio, que dizime todos os representantes da linha de sucessão, quem será o responsável por assumir o cargo de chefe da nação mais poderosa do planeta?”. Bem, é para isso que existe o chamado “sobrevivente designado”.

Todos os anos, antes do encontro, o governo americano indica um nome cuja função é passar por um treinamento e ficar em segurança durante o discurso do Estado da União. Essa prática, segundo informações do Escritório Histórico do Senado dos EUA, começou na década de 1960, já na época da Guerra Fria, mas, segundo o site Mic, pode ter sido até antes disso. No entanto, a revelação da pessoa escolhida passou a acontecer somente nos anos 1980.

Visão geral do Congresso Americano durante o discurso de Estado da União

Até então, nada era comunicado oficialmente. Hoje, o líder do governo escolhe o representante algumas semanas antes, e o nome só é anunciado momentos antes do discurso. Neste ano, o indicado pela Casa Branca foi o secretário de Segurança Interna, Jeh Johnson, e o evento aconteceu no último dia 12 de janeiro. Um artigo do site Mic traz um olhar um pouco mais aprofundado sobre essa condição, com depoimentos de representantes que já estiveram na situação de sobreviventes designados.

O treinamento

Segundo os parlamentares que já estiveram na condição de sobreviventes designados, o escolhido passa por um treinamento com orientações passadas pelo Serviço Secreto. As instruções são baseadas no que se deve fazer, caso ocorra uma catástrofe no dia do discurso. Porém, os detalhes desses exercícios não são revelados por nenhum dos representantes passados.

O ex-secretário de Agricultura do governo de Bill Clinton, Dan Glickman, foi o sobrevivente designado para o ano de 1997. Ele faz uma comparação entre a ocasião em que ele esteve à frente do cargo e os dias atuais, na era pós-atentados de 11 de setembro de 2001. “O cenário é muito diferente. A segurança é muito intensificada em função do nível de ameaças”.

O ex-secretário da Agricultura do governo Bill Clinton, Dan Glickman

Glickman contou que foi orientado para, se possível, sair de Washington naquela noite. Assim, ele optou por acompanhar o discurso e jantar com a sua filha em Nova York. A bordo do avião da Força Aérea que o conduziu até a cidade, estavam ele, alguns agentes do Serviço Secreto e um militar em posse dos códigos nucleares do país.

O Mic também conversou com o ex-secretário de Interior do Governo Obama, Ken Salazar, que foi o escolhido em 2011. Quando perguntado sobre o local onde passou o período de discurso do Estado da União, ele apenas se limitou a dizer que foi fora de Washington.

A responsabilidade e o lado intrigante de ser um sobrevivente designado

Segundo Salazar, é uma honra ser o escolhido para servir a essa condição, mas há um confronto de pensamentos. “É um privilégio (...) e você sente a responsabilidade de estar nessa posição, porém você acaba sempre esperando que nada aconteça. É uma daquelas situações que ficam guardadas na sua memória para sempre”, afirmou.

Ken Salazar, o sobrevivente designado do governo Obama em 2011

Mesmo que de forma rápida, os escolhidos sentem o poder de serem os sobreviventes designados, pois em algum momento precisam pensar sobre o juramento de posse. “A ocasião é única e é séria. Eu vim de uma perspectiva de aplicação da lei, então realizei o treinamento de forma muito ajuizada”, complementou Ken Salazar.

Dan Glickman chegou a imaginar o seu perfil como presidente, já que seria o primeiro representante judeu a se tornar líder do país mais poderoso do mundo. “Nesse sentido, teria sido uma situação bacana, mas eu não queria que nada acontecesse, pois gostava muito do Presidente Clinton”, ressaltou.

De qualquer forma, Glickman disse que a única coisa que passava pela sua cabeça era que, se acontecesse algo, iria se perguntar: “o que nós vamos fazer agora?”. Na época do discurso de Bill Clinton, ele comentou com a sua mulher, Rhoda, e ela respondeu: “você vai conseguir lidar com isso”.

O que você faria se fosse escolhido como “sobrevivente designado”, e o presidente dos Estados Unidos sofresse um ataque? Comente no Fórum do Mega Curioso