Devido a um acidente de trânsito, Robert Chelsea teve queimaduras graves na maior parte do corpo. Entre diversos outros problemas causados tanto pela queimadura quanto pelo tempo hospitalizado, ele ficou completamente desfigurado.

Mesmo após mais de 30 cirurgias, seus problemas não foram facilmente resolvidos. Robert tinha dificuldade para manter alimentos na boca e precisava inclinar a cabeça para trás para líquidos e comidas não escaparem enquanto comia. Este, e o fato de não conseguir mais beijar o rosto da filha, eram alguns dos problemas que mais o incomodavam. A única solução para o seu problema seria um transplante facial.

Transplante facial ainda é raro

(Fonte: CNN)

Como a técnica é muito complicada, menos de 50 cirurgias do tipo foram feitas até hoje em escala mundial. Robert Chelsea é, inclusive, o primeiro homem negro a ser submetido a este tipo de cirurgia devido a um problema prático e outro cultural.

Em maio de 2018, por exemplo, Robert recebeu a oferta de um transplante facial poucos meses após entrar na fila de doação de órgãos. O problema é que o doador tinha um tom de pele muito mais claro que a do paciente. Robert, então, preferiu continuar aguardando por mais de um ano na fila até que outra doação — de um tom de pele semelhante ao dele — fosse ofertada.

Passado difícil de superar

Outro ponto importante a ser levado em consideração é o fato de os afro-americanos não confiarem nos órgãos de saúde dos Estados Unidos. E eles tem um ótimo motivo para isso.

Durante a década de 1930 o governo anunciou que faria o acompanhamento e tratamento de cerca de 600 voluntários. Todos eles eram homens negros de baixa renda que viviam em Tuskegee, no Alabama.

No entanto, todos os voluntários negros foram usados, sem conhecimento, para um experimento que pretendia identificar como sífilis agia no corpo humano se não fosse tratada. Enquanto um grupo de controle realmente recebia um tratamento, o outro recebia placebos, transmitindo a doença para parceiras, para os filhos e sofrendo as consequências dela. Muitos dos voluntários morreram, ficaram cegos, desenvolveram problemas cardíacos, passaram a sofrer de instabilidade mental, entre outros problemas causados pela doença. O mais grave é que estes testes continuaram mesmo depois de a descoberta da cura da doença.

Quando o escândalo se tornou público, a desconfiança da população afro-americana em órgãos de saúde do país se tornou muito reduzida. Isso é refletido até hoje inclusive no número de doadores de órgãos e em voluntários para novos tipos de cirurgia, como Robert Chelsea.

Especialistas esperam que a divulgação do caso de Robert ajude a aumentar o número de doadores para que a fila de transplante de tecido, face e mãos, que para muitos pacientes negros depende da tonalidade de pele, possa diminuir.