Em um mundo onde a maioria das pessoas parece buscar freneticamente um namorado perfeito ou uma namorada espetacularmente bonita, quem sente atração por alguém considerado fora do padrão estético atual muitas vezes se vê sendo forçado a explicar por que gosta de determinada pessoa. Eis uma situação chata, não é mesmo?

Essas explicações geralmente envolvem sentenças como “ah, mas ele não é fotogênico” ou “ela não é bonita, mas é gente boa”, como se, de fato, precisássemos explicar para os outros por que sentimos interesse por alguém. Se por acaso esse tipo de situação soa familiar, saiba que há até nome para essa atração sexual por pessoas que não são consideradas bonitas: sapiossexualidade.

O que é?

Basicamente, é quando você sente um interesse gigantesco por uma pessoa depois de conversar com ela. Ao falamos, damos pistas de nossa personalidade, e às vezes tudo o que uma pessoa precisa para conquistar a outra é, de fato, um bom papo.

É na medida em que a conversa evolui que o interesse cresce. Depois de algum tempo, quando se percebe as afinidades musicais, literárias e de filosofia de vida, por exemplo, a pessoa em questão passa a ser vista como incrivelmente bonita, quase irresistível, a ponto de fazer com que seus olhos brilhem, seu estômago dê cambalhotas e seu coração acelere.

E aí você apresenta a nova pessoa dos seus sonhos para um amigo e ouve “nossa, mas ele é baixinho demais!” ou “credo, ela tem um nariz estranho”. A má notícia é que dificilmente isso vai mudar. A boa notícia é que beleza é um conceito relativo e, além disso, agora você pode chamar de sapiossexualidade a sua capacidade de gostar das pessoas pelo que elas são e não pela forma física que elas têm.

Inteligência é afrodisíaco

A verdade é que todos nós gostamos de pessoas inteligentes, e não é apenas isso que basta para que alguém se considere uma pessoa sapiossexual. Em artigo publicado no Alternet, Carrie Weisman explica: “Sapiossexuais não apenas relacionam inteligência com atração; eles relacionam inteligência com atração carnal”.

Weisman explica também que, embora o termo não esteja no mesmo nível de “heterossexual” ou “bissexual”, faz parte, sim, do espectro de orientação sexual. No OKCupid, um site gringo de relacionamento, entre as opções “heterossexual”, “homossexual”, “pansexual” agora está também a “sapiossexual”.

É normal que o termo cause estranhamento, afinal ele é recente e foi criado em 1998, por Darren Stalder. Ainda assim, ficou conhecido apenas em 2008, quando passou a ser discutido mais amplamente. A popularidade da palavra pode ser atribuída a Kayar Silkenvoice, a escritora que passou a usar o termo em 2005, quando criou o domínio sapiosexual.com.

“Sapiossexual é uma palavra recentemente construída (neologismo) e que tem caído em uso comum, particularmente em redes sociais, em que pessoas estão se autoidentificando como sapiossexuais. É a concatenação da raíz latina sapio – de sapiens, que significa sabedoria ou inteligência – e da raíz latina sexualis, no que se refere a preferências sexuais”, explicou a escritora à época.

De acordo com a autora, que conversou com Weisman, uma das coisas mais interessantes a respeito do termo é o fato de que ele é usado como uma definição realmente pessoal, baseada na personalidade de cada indivíduo. Ela explica que o termo representa aqueles que vão além do estereótipo nerd ou geeky – são pessoas cujos instintos sexuais se afloram diante de alguém que consideram inteligente.

Para Silkenvoice, a popularização do termo é também um alívio para quem sempre teve dificuldades na hora de dizer por que sentia atração sexual por determinada pessoa. Ela explica também que a definição de inteligência varia de pessoa para pessoa, mas que, em geral, a pessoa sapiossexual não tem interesse apenas na inteligência acadêmica de alguém, mas também na inteligência de vida do outro e em tudo aquilo desperta a paixão e energia dela.

A autora acredita que as relações sexuais são outro ponto positivo de quem é inteligente, pois, de acordo com ela, “pessoas inteligentes reconhecem que não precisam ser boas em tudo”. Nesse sentido, ela explica que, no sexo, são indivíduos que querem aprender sobre o corpo do parceiro e, consequentemente, o ato se torna intenso, interessante e nada monótono.

Quanto à aparência da outra pessoa, Silkenvoice explica usando o exemplo de quem está acima do peso. Para ela, os sapiossexuais não enxergam essa característica como repulsiva, pois reconhecem que ela é só um atributo do outro indivíduo.

“Eu tenho um tipo, mas eu também saio com pessoas que não fazem o meu ‘tipo’”, explica ela, que complementa: “Eu sou uma dessas pessoas que tentam encontrar alguma coisa para amar em todo mundo que conheço. Então, quando você parte desse ponto, há muitas coisas para achar atraentes nas pessoas”, finaliza. E aí, será que você pode ser considerado um sapiossexual?