Poucas são as informações disseminadas quando o assunto é identidade de gênero e, assim como qualquer assunto relacionado à sexualidade, ainda há muito preconceito e discriminação. No entanto, os relatos de casos de pessoas que se descobrem após longas vidas, muitas vezes já constituídas, existem e estão sendo cada vez mais divulgados.

Aqui no Mega Curioso, nós já publicamos os 7 casos de transexuais lindas e vencedoras e a história do ex-oficial da marinha que virou uma mulher incrível, que certamente ajudam a esclarecer as visões sobre essas situações. Agora, outro drama vivido por um transgênero também promete mostrar como é a realidade dessas pessoas.

A história de Paul é um pouco diferente da maioria das outras sobre identidade sexual conhecidas. Com 52 anos, hoje ele é “Stefonknee” (se pronuncia Stefanie) Wolscht, uma garotinha de seis anos que vive com pais adotivos. Desde os 46 anos, o canadense vive sob a nova identidade, mas antes disso sentia a necessidade de se vestir com roupas femininas. Stefonknee, diferentemente da “garota barbada”, a atração do mundo pop asiático, que também mostramos aqui no Mega, não é apenas um “crossdresser”.

Stefonknee Wolscht, a garotinha de 6 anos que antes era Paul, homem de 52, casado e com sete filhos

Após 23 anos, um casamento estável e sete filhos, ela percebeu que, na verdade, era um transgênero. Assim, assumiu a nova identidade e atualmente afirma que vive feliz, mas, antes de conseguir ficar em paz consigo mesma, viveu um grande drama, em que, no ápice de seu sofrimento, chegou a tentar suicídio em duas oportunidades.

A vida de Paul antes de se tornar Stefonknee

Membro dedicado da igreja católica e mecânico, Paul se casou com Maria logo após o colegial e teve sete filhos. Segundo contou ao canal de notícias gays e lésbicas Daily Xtra, em vídeo publicado no YouTube, ele já sentia que era trans antes de se casar, mas sua criação não o fazia entender do que se tratava essa condição.

Paul, antes de revelar sua verdadeira identidade de gênero ao lado de uma freira, sua mulher Maria e três de seus filhos

De acordo com o site Mail Online, logo aos seis anos, Paul já se sentia diferente dos outros meninos. Ele afirmou que, nessa idade, tinha ciúmes das meninas que usavam vestidos e roupas novas no dia de tirar fotos da turma. Assim ele cresceu como menino e se tornou um homem, que, a princípio, era apenas adepto da utilização de roupas femininas, ou chamado de crossdresser.

Depois de casados, Maria se surpreendeu ao saber do gosto do marido, mas aceitou e chegou a comprar um belo traje feminino para ele. “No dia seguinte, ela comprou para mim uma saia preta plissada, uma blusa branca e uma camisola cinzenta… Ou seja, eu consegui uma aliada”, disse Stefonknee.

O homem então foi apoiado pela esposa até que suas atitudes passaram a ser muito mais de um transgênero do que de simplesmente alguém que gostava de usar roupas femininas. Isso Maria não poderia suportar, então deu o ultimato: “Pare de ser trans ou vá embora”.

Paul e Maria, antes dele se tornar Stefoknee

Paul não poderia atendê-la. Conforme contou, o pedido de sua esposa soava, para ele, da mesma forma que se pedissem para ele deixar de ter 1,90 metro de altura. Impossível. Foi aí que, aos 44 anos, Paul decidiu reunir os seus sete filhos e contar que era uma mulher, após participar de alguns workshops sobre transgenerismo em Toronto, no Canadá. O grande drama de sua vida estava apenas começando.

A mudança de vida e as tentativas de suicídio

Fora de casa, Paul saiu da cidade para viver como uma mulher. Em 2009, já como Stefonknee, iniciou o tratamento de reposição hormonal e, depois de alguns meses, tentou se matar pela primeira vez, após participar de um evento para o público transgênero. Ficou hospitalizado por aproximadamente um mês.

Com a identidade assumida, não perdeu somente a família, mas também seu emprego como mecânico. Ela conta que a decisão de revelar a sua condição foi a coisa mais difícil que teve de fazer. “Eu perdi todos os meus clientes e precisei dormir em um abrigo para sem-teto durante alguns meses”, ressalta.

A família, sem dúvida, foi o pior ponto a ser superado por Stefonknee. Depois de conversar com os filhos, ela pediu para que eles escrevessem cartas expressando o que sentiam em relação à sua condição. Em um gesto de afeto, um de seus meninos, Peter, escreveu palavras de solidariedade.

“Querido pai, eu me sinto envergonhado de lhe ver andando por aí vestido dessa maneira. Mas, se é isso o que você realmente quer, está tudo bem para mim. Com amor, Peter”, dizia a mensagem. No entanto, o garoto foi o único a demonstrar um pouco de compaixão com a situação. Os demais fizeram questão de ressaltar para o pai quão “enojados” estavam se sentindo em vê-lo usando roupas femininas e agindo como se fosse sua mãe, em vez de pai.

O choque maior aconteceu em 2012. Sua filha Amanda ia se casar e a convidou, mas com uma condição: ela teria que se vestir como homem e se sentar no final da igreja, sem se relacionar com os outros membros da família. Nesse momento, aconteceu a segunda tentativa de suicídio.

Quando parecia estar no fundo do poço, Stefonknee se recuperou e começou a ter novos motivos para sorrir. Uma das coisas que a ajudaram muito foi a aceitação por parte da Igreja da Comunidade Metropolitana de Toronto, que, em sua maioria, é formada por membros LGBT. Eles instituíram um grupo de apoio especial para ela.

A nova família e a situação atual

Atualmente, Stefonknee é uma garotinha de seis anos que vive com seus “pais adotivos”, um casal de amigos que a acolheu. O casal possui filhos e netos que também apoiam totalmente a sua condição. A idade de seis anos, inclusive, foi definida depois de um pedido da neta do casal.

Stefonknee com os seus pais adotivos, no Canadá

“Há um ano, eu tinha oito e ela tinha sete. Foi quando ela me disse: ‘Eu quero que você seja a minha irmã mais nova, então vou ter nove anos’. Eu respondi que não me importava de ter seis e desde então essa é a minha idade”, revelou.

Stefonknee ganha dinheiro para arar a neve, durante o inverno. Em casa, ela faz coisas que uma menina de seis anos geralmente faz, como brincar com bonecas e colorir desenhos junto de seus pais adotivos. “Isso é chamado de ‘terapia da brincadeira’. Não há mais medicações, não há mais pensamentos suicidas. Eu só quero brincar”, explicou.

A menina Stefonknee com sua coleção de bonecas

Sobre sua vida antiga, ela afirma que não pode negar que foi casada e que teve filhos, mas diz que seguiu em frente e voltou a ser criança como gostaria. “Eu não quero ser adulta neste momento”, concluiu Stefonknee.

Conhece a história de alguém que mudou totalmente a vida após descobrir a verdadeira identidade de gênero? Relate no Fórum do Mega Curioso