Mesmo que você não tenha medo de viajar de avião, é impossível não sentir um friozinho na barriga quando enfrentamos fortes turbulências — ainda que você não admita e mantenha o semblante tão tranquilo quanto o de um monge budista. Aliás, esses chacoalhões estão entre as principais preocupações dos viajantes, e não é para menos. Afinal, ninguém gosta de se sentir inseguro a mais de 11 mil metros de altitude!

Contudo, o pessoal do Gizmodo publicou o trecho de um livro de autoria do piloto Patrick Smith, no qual ele explica detalhadamente o que acontece durante as turbulências e, por incrível que pareça, tranquiliza todo mundo com respeito a esses desconfortáveis eventos. Segundo Smith, apesar de às vezes acharmos que o nosso fim chegou, nenhuma turbulência — por mais forte que seja — jamais será capaz de derrubar um avião.

Apertem os cintos

Embora sejam incômodas para passageiros e tripulação, as turbulências são supernormais, e quando os pilotos fogem delas durante os voos, eles fazem isso para garantir o conforto dos que estão a bordo, e não necessariamente para fugir do perigo. Assim, os comandantes não estão preocupados se as asas da aeronave vão sair voando pelos ares, mas sim em garantir que os cafezinhos e sucos vão permanecer em suas bandejas.

Com respeito à variação de altitude ou direção que um avião sofre durante turbulências mais significativas, Smith revelou que nunca detectou deslocamentos superiores a 12 metros — para cima ou para baixo, assim como para as laterais —, apesar de os passageiros terem a sensação de que a aeronave despencou 900 metros em dois segundos. Mas o mais normal é que as variações sejam entre 3 e 6 metros.

No entanto, quando as turbulências são do tipo mais severo, os pilotos reduzem um pouco a velocidade do avião — mas não se preocupe, pois você não vai sentir nada da sua poltrona — e, em alguns casos, solicitar permissão para voar mais alto ou mais baixo ou, ainda, pedir por uma rota alternativa. Além disso, os comandantes também vão solicitar que os passageiros fiquem em seus lugares com os cintos afivelados.

Encontro agitado

De acordo com Smith, prever quando uma aeronave entrará em uma área de turbulência é uma verdadeira arte. Os pilotos se baseiam em informações de radar, informes meteorológicos e relatórios enviados em tempo real por outras aeronaves em rota. Além disso, eles também se baseiam em outros indicadores.

Os pilotos sabem, por exemplo, que as nuvens do tipo cúmulos — aquelas bem densas que se parecem com montanhas de algodão —, especialmente as que têm formato de bigorna no topo, quase sempre proporcionam um encontro agitado. O mesmo é esperado quando a aeronave sobrevoa cadeias montanhosas. Contudo, de vez em quando acontece de as áreas de turbulência surgirem inesperadamente.

Fraca, média, forte

Também existe uma escala — subjetiva — que os pilotos usam para classificar os chacoalhões, variando de leve a extrema. Smith, por exemplo, garante que nunca passou por uma do último tipo, mas já teve várias experiências com as moderadas e até com severas. Entretanto, apesar da violência de algumas delas, ele nunca pousou com feridos ou danos no avião.

Nesse sentido, Smith explicou que, na maioria das vezes que são registrados feridos durante os voos devido a turbulências, os afetados foram passageiros ou membros da tripulação que não estavam devidamente sentados e com os cintos afivelados. Aliás, ele citou uma interessante estatística: nos EUA são registrados cerca de 20 passageiros feridos de 800 milhões que viajam no país anualmente.

E onde é melhor se sentar para sofrer menos? Segundo Smith, apesar de fazer pouca diferença, quanto mais próximo das asas, melhor. Isso porque nessa área se encontra o centro de gravidade e sustentação do avião, enquanto que os piores pontos se encontram mais próximos da traseira da aeronave. Entretanto, também existe um fenômeno um tanto quanto curioso — e assustador...

Esteira de turbulência

Sabe os redemoinhos que se formam no mar depois da passagem de navios? O mesmo ocorre com os grandes aviões, só que de maneira mais intensa. Isso porque, em vez de apenas um, se formam dois vórtices nas extremidades das asas. Nessa área o ar com alta pressão que se encontra na parte inferior das asas é puxado para a parte de superior (de baixa pressão), resultando em um fluxo de ar circular que se forma atrás do avião, parecido com um par de mini tornados.

Os vórtices são mais intensos quando o avião está mais lento e as asas trabalhando mais para manter a sustentação da aeronave, ou seja, durante as decolagens e as aterrissagens. Eles podem alcançar velocidades de mais de 90 metros por segundo, e o avião que produz a pior esteira de turbulência de que se tem notícia é o Boeing 757, devido a sua aerodinâmica.

Assim, aeronaves que passem pela região na qual os “tornadinhos” foram formados — especialmente as menores —, devem ter muito cuidado para não perder a estabilidade. E os controladores de tráfego aéreo devem permanecer sempre atentos para garantir que exista espaço suficiente entre uma decolagem/aterrissagem e outra para evitar que possíveis acidentes aconteçam.