O hábito de passar a perna em um indivíduo mais fraco (ou apenas distraído) pode não ser apenas humano. Algumas espécies de peixes também podem aderir à famosa “trairagem” com seus semelhantes, dando um jeito de atirar um deles para o inimigo a fim de distraí-lo para ter mais tempo para se safar.

A descoberta desse fato foi feita por acaso pelos pesquisadores Robert Young, da Universidade de Salford, e pelo brasileiro Vinícius Goulart, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Os dois profissionais estavam investigando algumas formas de como impedir os peixes de entrarem nos maquinários de usinas hidrelétricas quando descobriram esse comportamento dos seres aquáticos.

Ação traiçoeira

Os peixes estudados são da espécie Astyanax, mais conhecido como Lambari e muito comum em lagos, rios e represas do Brasil. Neste último local, os peixes causam problemas em usinas ao entrar nas turbinas e máquinas. E foi com o objetivo de solucionar esse problema que os pesquisadores partiram para alguns estudos que revelaram outra faceta dos lambarizinhos.

Para os testes, os pesquisadores organizaram provas de ataques de predadores e descobriram que essa espécie sul-americana tinha sempre como alvo um peixe azarado que era atingido por outro com uma colisão seguida de uma mordida.

Essa forma de “bullying” faz com que os outros peixes também o ataquem, deixando o escolhido fraco e intimidado, que o torna uma presa perfeita para o predador e livra os outros peixes para a fuga. Uma atitude que os pesquisadores identificaram como reconhecidamente egoísta, mas pela sobrevivência.

Testes

Fonte da imagem: Reprodução/New Scientist

Os pesquisadores dividiram os peixes em oito grupos de oito “participantes”, garantindo que todos eles tivessem o mesmo tamanho. Em seguida, eles foram expostos a três ataques simulados e um de controle.

Em um dos testes, os pesquisadores imitaram um ataque de predador, levando para perto dos lambaris uma réplica de resina de um peixe de caça chamado — coincidentemente — de traíra.

No outro, o predador falso foi escondido em um tubo de plástico para simular uma emboscada. No terceiro teste simulado, uma garça foi usada para tentar bicar os peixes fora da água. Finalmente, o experimento de controle envolveu uma caixa de plástico que foi gentilmente colocada no tanque de peixes.

Bullying aquático

Os resultados mostraram que, quando confrontados com o ataque de predador, o lambari “elegeu” um peixe no seu grupo como um alvo para os outros perseguirem. Um deles se chocava com o alvo e o mordia. Com isso, o azarado fugia e nadava sozinho por alguns segundos antes de voltar ao grupo. Isso faz com que ele se torne uma isca fácil para o inimigo.

Entretanto, nos outros testes, incluindo o controle, essa resposta não aconteceu. Os pesquisadores afirmam que é porque os pássaros e predadores de emboscada não têm como alvo os membros mais fracos do cardume. Nesses casos, eles atacam qualquer peixe que estiver mais próximo. Assim, nessas situações, o lambari não vê vantagem em atacar o semelhante.