Eis uma notícia que não é nada agradável — e que não deixa de ser curiosamente macabra, especialmente considerando a proximidade do Natal. De acordo com Andy Coghlan, do portal New Scientist, um estudo recente apontou que mais de 80 mil renas já morreram no Ártico nos últimos 10 anos. O mais assustador é que esses animais todos pereceram de fome, e esse desastre não aconteceu de forma gradual.

Segundo Andy, só no ano de 2006, cerca de 20 mil renas morreram — com esse número saltando para mais de 60 mil em 2013. E que saber quem é o culpado desses devastadores eventos? Padrões climáticos bizarros resultantes de temperaturas mais elevadas do que o normal na Península de Yamal, no Ártico Russo, e o pior é que essa perda em massa da população de renas pode se repetir este ano. Assustador, não é mesmo?

Preocupante

Conforme explicou um dos pesquisadores envolvidos no estudo, Bruce Forbes, da Universidade da Lapônia em Rovaniemi, na Finlândia, tanto no ano de 2006 como no de 2016, as temperaturas registradas em novembro na região foram mais altas do que o normal. Esse calor fora de época resultou em chuvas mais fortes, o que, por sua vez, fez com que a neve — macia e leve — se transformasse em placas de gelo.

Dezenas de milhares de rena morreram de fome e esse triste desastre pode voltar a acontecer

O problema é que essas placas de gelo chegaram a medir dezenas de centímetros de espessura, impedindo que as renas pudessem ter acesso ao seu alimento — que se encontrava logo abaixo. Na verdade, esses animais, especialmente os machos, estão acostumados a quebrar lâminas de gelo (geralmente com até 2 centímetros) para expor a tundra, mas não uma camada tão grossa.

Segundo os pesquisadores, tudo indica que as alterações nos padrões climáticos foram resultado da retração da cobertura de gelo nos mares de Kara e Barents, que fazem parte do Oceano Ártico e se encontram próximos à Península de Yamal, no início de novembro em 2006 e 2013. No entanto, nessa época do ano, a cobertura de gelo deveria estar aumentando depois do degelo normal do verão.

Com isso, a falta de gelo fez com que a evaporação das águas e a umidade na região aumentassem. E isso, combinado com temperaturas mais altas do que o normal, resultaram na formação de mais nuvens carregadas que, por sua vez, se deslocaram sobre a Península de Yamal e despencaram na forma de chuvas torrenciais. Então, durante todo o inverno, as temperaturas caíram para -40 °C, e solo encharcado simplesmente congelou.

Mais mortes?

Em 2006, algumas partes do solo não chegaram a ficar tão congeladas nem cobertas pelas espessas camadas de gelo e, por isso, o número de renas que morreram de fome chegou a 20 mil. Entretanto, 2013 foi um ano bastante pior, e mais de 60 mil do rebanho de 275 mil — ou o equivalente a mais de 20% do total — renas acabaram perecendo.

Mudanças climáticas na região cortaram o acesso dos animais ao seu alimento

Assustadoramente, parece que o mesmo padrão pode se repetir este inverno. Isso porque, em setembro os pesquisadores identificara a segunda menor cobertura de gelo já registrada no Ártico, o que sugere que as temperaturas na região foram bem mais altas do que o normal para essa época do ano.

Pois além das mortes de tantos animais ser uma questão ambiental séria — já que, além da perda massiva de indivíduos, a presença de tantas carcaças pode contaminar o solo e afetar a população que habita a região —, outro problema é que as renas são uma importante parte da economia na península, e as perdas dos anos anteriores ainda não foram completamente superadas.

Os pesquisadores temem que, com temperaturas cada vez mais altas e as mudanças climáticas resultantes desse fenômeno, os frágeis ecossistemas da região sejam permanentemente afetados. A esperança é que com o monitoramento constante, os cientistas consigam prever como será a cobertura de gelo e, assim, encontrem formas de proteger a fauna local — ou evitar que ela sucumba de maneira tão inclemente.