Todo mundo sabe que, pelo menos para a maioria dos seres vivos, é incompatível com a vida perder a cabeça — no sentido literal mesmo —, né? Não é complemente impossível, tanto que nós do Mega Curioso já falamos por aqui a respeito de Mike, um frango que, por incrível que pareça, sobreviveu durante nada menos que 18 meses sem sua cabecinha! Mas, assim, você concorda que é muito, muito difícil que alguém perambule por aí depois de sofrer uma decapitação, mesmo que parcial, certo?

Pois imagine a surpresa de alguns pesquisadores quando, em uma visita de campo por uma floresta em Connecticut, nos EUA, um deles sentiu algo batendo em seu pé e, quando parou para ver direito o que se tratava, deu de cara com um sapo “sem cabeça” — ou “sem cara”, visto que esses anfíbios não têm uma cabeça tão definida. Enfim, o que eles viram foi esse bicho aqui, ó:

Sapo sem cabeçaPode isso? (National Geographic/Jill Fleming)

Bizarro

De acordo com Michelle Starr, do site Science Alert, a cientista que clicou a foto do sapo bizarro acima é a herpetologista Jill Fleming, da Universidade de Massachusetts, e o encontro com animal aconteceu em 2016. Segundo ela descreveu em um tweet, o anfíbio estava saltitando pela floresta apesar de não ter olhos, narinas, língua ou mandíbula — e tinha apenas um orifício que, conforme Jill deduziu, seria uma abertura à glote ou esôfago do sapo.

Os cientistas não coletaram o anfíbio, nem o sacrificaram, portanto, eles não sabem exatamente como é que ele foi perder a cabeça, mas Jill suspeita que o sapo despertou da brumação — ou seja, do período semelhante ao de hibernação dos mamíferos que é praticado por répteis e anfíbios — desse jeito. Isso significa que o sapo pode ter sido atacado por algum predador durante a fase de dormência e, incrivelmente, sobrevivido. Veja um vídeo do sapo sem cabeça:

Entre as possibilidades propostas pela galera que viu o tweet de Jill está a de que o sapo pode ter sido atacado por um de seus vários predadores naturais, como cobras, roedores ou até o vison-americano (Neovison vison). O que deve ter acontecido é que um desses animais encontrou o sapo dormindo, comeu sua cara e, por alguma razão, decidiu não terminar a refeição, deixando o anfíbio meio devorado pra lá.

Outra possibilidade — muito sinistra! — que foi sugerida é que a cabeça do sapo tenha sido devorada pelas larvas de uma espécie de mosca, a Lucilia bufonivora, que costuma por seus ovos ao redor dos olhos e narinas dos anfíbios. Então, quando as larvinhas eclodem dos ovos, elas começam a se alimentar dos tecidos ao redor dos olhos e nariz dos coitados, fazendo um belo estrago. O incrível mesmo é o sapo não ter morrido! Confira o tweet original:

Vale destacar que, durante a brumação, os animais entram em um estado de dormência em que o ritmo metabólico e de outras tantas funções do organismo caem dramaticamente — e foi provavelmente isso que evitou que o sapo morresse devido aos gravíssimos ferimentos que sofreu. Aliás, é possível que a inatividade tenha promovido a recuperação do bicho, até que ele despertou no início da primavera e trombou (literalmente) com os cientistas.

Outra coisa, seja lá o que foi que comeu a cara do sapo, sobrou tronco encefálico suficiente para que o organismo dele continuasse funcionando — tal como aconteceu com o frango Mike. Jill duvida que o sapo tenha sobrevivido por muito tempo depois do encontro, uma vez que, desprovido de língua, boca e maxila, seria difícil de ele conseguir se alimentar, sem falar que a falta de olhinhos o tornava uma presa extremamente fácil para os predadores. Bizarro, né?