Quando se trata de comida, provavelmente você já ouviu de tudo, desde “comer manga com leite mata” até “não pode nadar de barriga cheia”, mas existem algumas coisas que ainda são muito surpreendentes. Um dos experimentos da série “Trust Me, I'm a Doctor”, da BBC, provou que nem tudo em que acreditamos é verdade.

Na escola, você deve ter aprendido que o macarrão é uma forma de carboidrato e, como todos os outros de sua família, ele é quebrado no estômago, para assim poder ser absorvido na forma de açúcares simples, os quais aumentam a taxa de glicose no sangue.

Em resposta ao acúmulo de açúcares, o corpo produz uma grande quantidade do hormônio insulina, visando assim retornar a taxa de glicose de volta ao normal da maneira mais rápida possível, pois altas taxas de glicose no sangue podem ser extremamente perigosas para saúde.

Um rápido aumento de açúcar, seguido por uma drástica queda, pode fazer com que você sinta fome novamente logo após terminar uma refeição. Isso fica bem claro no caso de doces e bolos, mas também é válido para massas, batatas, arroz comum e pão branco.

É exatamente por isso que os nutricionistas enfatizam a importância de ingerir alimentos ricos em fibra, uma vez que eles produzem uma alternância gradual nas taxas de glicose no sangue.

Macarrão também pode ser saudável

Não seria legal se fosse possível mudar o macarrão e as batatas para um tipo de alimento que, no corpo, agisse mais como uma fonte de fibra? Bem, ao contrário do que pensávamos, isso é possível. Cozinhar o macarrão e depois resfriá-lo muda a estrutura da massa, a transformando em algo chamado “amido resistente”.

A substância recebe esse nome porque uma vez que as batatas, o macarrão ou qualquer outro alimento rico em amido é cozido e depois resfriado, ele se torna resistente às enzimas que estão presentes em nossas entranhas e que são responsáveis por quebrar os carboidratos e liberar a glicose que causa o aumento de açúcares no sangue.

Emagreça comendo macarrão (ou quase isso)

De acordo com a doutora Denise Robertson, da Universidade de Surrey, se você cozinhar e resfriar o macarrão, seu corpo vai tratá-lo como se fosse um alimento rico em fibras, criando uma pequena alteração de glicose e ajudando a alimentar a bactéria boa que vive nas profundezas das vísceras. Além disso, você vai absorver menos calorias e consequentemente engordar pouco.

Um dos maiores problemas é que nem todo mundo aprecia macarrão gelado. Então, o que aconteceria se você pegasse esse alimento e requentasse?

O teste da macarronada

O doutor Chris van Tulleken conseguiu alguns voluntários para teste. Todos eles tiveram que passar por três dias de experimentos, que na verdade levaram várias semanas. Em cada ocasião, eles tiveram que comer o macarrão de estômago vazio.

Cada participante era sorteado para ingerir a massa quente, fria ou requentada em diferentes dias da semana. Em um deles, o voluntário podia se deliciar com uma bela macarronada, quente e fresquinha, repleta com um delicioso molho de tomate e alho.

Dr. Denise Robertson (fundo, à esquerda) e o dr. Chris van Tulleken (fundo, segundo à direita) com os voluntários

Em outro, ele precisava comê-la fria, ainda com o mesmo molho, mas após passar a noite inteira na geladeira. Já na terceira ocasião, eles também podiam degustar o prato, mas só depois de ele ter sido resfriado e requentado no dia seguinte.

Todas as vezes, eles tiveram que dar amostras de sangue a cada 15 minutos durante duas horas, visando assim descobrir o que acontecia com a glicose sanguínea conforme o macarrão era lentamente digerido pelo estômago.

Resultado

Os cientistas acreditavam que o macarrão gelado seria mais resistente no organismo do que os alimentos recém-cozidos... E eles acertaram. Assim como esperado, comer massa resfriada levou a uma alteração menor na taxa de glicose e insulina no sangue do que degustar um prato saindo direto do forno.

Entretanto, eles também descobriram algo que não esperavam: cozinhar, resfriar e depois requentar o macarrão teve um efeito ainda melhor. Ou, para ser mais preciso, afetou menos ainda as variações no sangue.

Na verdade, a redução foi de 50% no aumento de glicose. Portanto, o experimento sugere que requentar o macarrão o transformou em um “amido resistente” ainda mais forte. A doutora Denise vai continuar seus experimentos – patrocinada pela instituição Diabetes UK – visando descobrir se, mesmo sem outras modificações na dieta, adicionar amidos resistentes na alimentação pode auxiliar em alguns resultados ligados ao diabetes.

Chris ficou muito feliz com a pesquisa: “Nós fizemos uma descoberta novíssima em ‘Trust Me I'm A Doctor’”, ele disse. “Isso é algo que pode aprimorar a saúde. Nós podemos mudar uma dieta rica em carboidratos para uma abastecida de fibras sem alterar nenhum ingrediente, apenas a temperatura. Para ser mais direto: as sobras podem ser mais saudáveis do que a comida original”, conclui o cientista.