Diversos fatores fazem com que problemas físicos não sejam mais impeditivos de uma vida digna e independente. As soluções de acessibilidade trouxeram novas possibilidades para essas pessoas, sem falar nas opções cirúrgicas que se tornaram disponíveis, graças aos avanços da medicina.

O estrabismo é um distúrbio relativamente comum que, além da questão estética, pode provocar algumas dificuldades de visão. Atualmente existem formas de corrigir o problema através de cirurgia, mas durante a Idade Média essa não era uma opção. O que é tratado como um problema pode ter sido o diferencial de Leonardo Da Vinci, que segundo uma pesquisa publicada recentemente era estrábico e foi beneficiado pelo problema.

Problema?

O responsável pelo estudo foi Cristopher Tyler, neurocientista visual na City, University of London, que analisou seis obras de Da Vinci (duas escultura, duas pinturas a óleo e dois desenhos). Existem poucos retratos do renomado artista italiano, mas o pesquisador argumenta que qualquer obra dele, até certo ponto, possuiria suas características.

Na coleção de documentos deixados por Leonardo, chamado de Codex Atlanticus, ele escreveu que “(a alma) guia o braço do pintor e o faz com que ele reproduza a si mesmo, pois parece à alma que essa é a melhor maneira de representar um ser humano.” Para Tyler, essa declaração deixa explícito o fato de que ele utilizava as próprias características físicas como modelo para suas obras.

Junto dessa declaração está o fato de que diversos artistas renomados, como Rembrandt, Durer, Degas e Picasso, também apresentavam algum grau de estrabismo, condição verificada através da análise de seus autorretratos. Esse distúrbio faria com que o olho desalinhado fosse suprimido em alguns momentos, alternando entre uma visão monocular e espacial, situação que facilitaria a representação da realidade em uma tela.

Dúvidas esperadas

A falta de autorretratos do artista acaba colocando Tyler em uma situação delicada, pois as garantias de que ele tenha utilizado o próprio corpo como referência para suas obras são baseadas apenas em probabilidades. Apesar de especialistas em arte discordarem sobre a quantidade de retratos de Leonardo, um desenho que representa o artista com giz vermelho, já em idade avançada, é a única reconhecida por Kenneth Clark, principal autoridade sobre a obra do artista italiano.

Mesmo assim, outros especialistas dizem que a obra representa um homem muito mais velho do que a idade de Da Vinci na época do registro. Eles argumentam que o retrato poderia representar o pai ou um tio do artista, apesar de alguns pesquisadores modernos acreditarem que Leonardo aparentava ser mais velho do que realmente era.

Outra obra que provavelmente tenha sido uma representação fiel do artista, quando jovem, teria sido a escultura de Davi, feita por Verrocchio. O fato foi registrado pelo historiador Vasari, responsável pela biografia de diversos artistas italianos, e faz sentido já que Da Vinci foi aprendiz de Verrocchio, que classificou o aluno como possuidor de uma “beleza física excepcional”.

Outro fato que colabora para a tese da utilização do próprio corpo como referência foi um estudo, publicado em 2012 e do qual Tyler foi co-autor, que analisou seis obras que provavelmente eram representações de Leonardo Da Vinci. A equipe concluiu que as chances de que ele tenha sido utilizado como modelo são bem grandes, mas ainda sim é preciso realizar um maior número de comparações para que os dados possam ser validados estatisticamente.

Unanimidade entre críticos de arte é algo que Tyler não espera, mas ele tem muita confiança de que suas suposições e diagnósticos de estrabismo estão corretas. Pesquisas como essa nos fazem pensar em como as condições de vida podiam ser duras no passado, quando a única opção era aprender a viver com os problemas.

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