Você deve ter ouvido falar a respeito do nascimento de um menino com o código genético de três pessoas, certo? Mais precisamente, a criança possui em seu DNA o material genético de seu pai, de sua mãe e de uma terceira pessoa, uma mulher que doou seu DNA mitocondrial para evitar que o bebê pudesse nascer com uma doença genética potencialmente mortal.

De acordo com Jessica Hamzelou, do portal New Scientist, o menino nasceu há 5 meses no México, e sua mãe, uma mulher jordaniana, é portadora da Síndrome de Leigh, uma condição que afeta o sistema nervoso central e, em alguns casos, leva à degeneração das habilidades motoras e até à morte. Pois o que os geneticistas fizeram foi “recortar” o pedacinho do DNA da mãe contendo a síndrome e substituí-lo por um saudável, obtido da doadora.

Técnica revolucionária

A Síndrome de Leigh é uma de diversas condições que são transmitidas aos filhos a partir do DNA mitocondrial — ou seja, por meio do material genético que se encontra nessa organela celular e que apenas é passado aos descendentes pelas mulheres. No caso do bebê nascido no México, embora a mãe dele seja saudável e não apresente nenhum sintoma da condição, existiam 25% de chances de que ela transmitisse o problema para o menino.

Aliás, a mulher passou 20 anos tentando ter um filho saudável — e chegou a perder dois para a Síndrome de Leigh. A solução encontrada foi buscar um tratamento conhecido como transferência pró-nuclear, que consiste em fertilizar um óvulo da mãe e um da doadora com o espermatozoide do pai.

Bebezinho nos braços de um dos especialistas responsáveis pelo procedimento

Antes que essas duas células fertilizadas comecem o processo de divisão celular e deem origem ao embrião, os especialistas substituem o núcleo do óvulo da mãe pelo núcleo da doadora. Como resultado, os pesquisadores conseguem uma célula fertilizada contendo a mitocôndria saudável da outra mulher, enquanto o DNA da mãe permanece no núcleo.

Entretanto, como os pais do menino são muçulmanos — e eram contrários à destruição do outro óvulo fecundado —, os geneticistas tiveram que usar uma técnica alternativa. Nesse caso específico, eles empregaram um método chamado transferência nuclear de fuso, que funciona quase da mesma forma — a diferença é que a transferência do núcleo acontece antes de o óvulo ser fertilizado.

Os cientistas conseguiram criar cinco embriões, mas apenas um deles se desenvolveu e pôde ser implantado no útero da mãe. E, como já mencionamos anteriormente, o bebê nasceu há 5 meses e, até o momento, não mostrou qualquer sinal de ser portador da Síndrome de Leigh.

Questões éticas

O procedimento vem sendo considerado revolucionário pelo mundo, já que permite que pais portadores de doenças genéticas potencialmente mortais tenham filhos sem correr o risco de transmiti-las. No entanto, por ser relativamente nova, a técnica ainda é proibida em vários países — como nos EUA, por exemplo —, e muitos cientistas temem que os bebês gerados por meio desse tratamento possam desenvolver problemas genéticos com o tempo.

Muitos cientistas preferem esperar mais tempo antes de aplicar a técnica

Afinal, outros bebês já foram concebidos por meio de outra técnica que também envolve o uso do DNA de três pessoas, e alguns deles acabaram apresentando problemas genéticos. Sendo assim, no caso do bebê da mãe jordaniana, apesar de menos de 1% de seu DNA mitocondrial contar com a mutação genética que dá origem à síndrome e de ele aparentemente estar se desenvolvendo normalmente, é necessário monitorar sua saúde bem de perto.

De qualquer forma, os especialistas que conduziram o procedimento que resultou no nascimento do menino no México tomaram uma série de cuidados. Para começar, eles selecionaram um embrião do sexo masculino, já que ele não poderá transmitir o DNA mitocondrial a seus futuros descendentes e, portanto, está impossibilitado de passar doenças genéticas adiante. A equipe também evitou a destruição de embriões durante o processo.