A inteligência é certamente o maior diferencial entre a vida de humanos e a de outros animais. A habilidade de pensar e tomar decisões racionais nos coloca em outro patamar evolutivo, mas isso não significa que, de vez em quando, não sintamos vontade de ser como aquele nosso gato, que fica em casa preguiçoso, brincando com qualquer coisa e vivendo sem a interferência dos problemas da vida cotidiana. Nano, uma jovem de 20 anos de idade, faz exatamente isso: vive como se fosse um gato.

Recentemente, um programa de televisão britânico reuniu histórias de pessoas que vivem como se fossem cachorros de estimação. A ideia é justamente mostrar esse submundo que, em um primeiro momento, causa espanto a quem não está acostumado com a ideia, mas acaba preenchendo lacunas emocionais e sexuais na vida de seus adeptos.

Originalmente ligado às práticas de BDSM, o estilo de vida desses homens que se vestem e vivem como se fossem cachorros está se popularizando nos últimos anos, graças à existência da internet, que facilita o encontro de adeptos – geralmente homens, gays, com interesses por roupas de couro e borracha e que, claro, gostam também de se divertir com brinquedos de animais e receber alguns afagos na barriga.

Depoimentos de adeptos

Reprodução/Chanel4

O documentário explora a vida dessas pessoas, que não se definem apenas por gostarem de agir como cachorros. Tom, por exemplo, explica que se vestir de cachorro é uma maneira de conseguir agir natural e instintivamente. Nesses momentos, ele revela, não há preocupações com dinheiro, comida e trabalho – quando não está usando sua vestimenta canina, Tom é engenheiro.

No entanto, não foi de uma hora para a outra que ele começou a se vestir e a se comportar como cachorro. Seus fetiches iniciais incluíam roupas justas de couro, borracha e Lycra. Depois, Tom acabou comprando uma fantasia de dálmata e, em seguida, já tinha até uma bolinha de brinquedo. A mudança acabou fazendo com que ele terminasse o relacionamento com a noiva e desse início a uma nova relação, agora com Colin, seu “treinador”.

Tom contou que, já que todo cachorro precisa de um treinador, ele precisava também, e foi aí que conheceu Colin, pela internet. Sobre o relacionamento que mantém agora, o engenheiro explica que não se trata de amor, “mas o que eu tenho é alguém que está aqui para mim e eu estou feliz com isso”.

Instinto e emoção

Tom e a ex-noiva.

Já o escritor David define a prática como uma forma de fugir do mundo analítico: “É um espaço instintivo, emocional, mas dentro de cada animalzinho há uma pessoa”, explica ele, que afirma que se vestir de cachorro é parte de sua identidade. “Eu também sou vegetariano, toco piano; eu tenho um papagaio. Eu estava plantando tomates nesta manhã”.

Outro adepto da vida canina, Kaz, que trabalha com assistência técnica de computadores, explica que ser um cachorro implica em socializar como cachorro, encontrar outros cachorros com os quais brincar, curtir contato físico e, claro, comer sempre como um cachorro, de uma tigela no chão – pelo menos quando está em casa.

David, sobre a relação entre treinador e seu cachorro, explica que a questão tem a ver com lealdade e companhia, ainda que muitos cachorros prefiram curtir seus momentos sem um treinador. No caso do escritor, a relação com seu treinador, Sidney, já dura 10 anos: “Se qualquer pessoa chega perto dele, eu rosno como um pequeno bull terrier”, revela.

É fetiche, mas não exatamente envolvendo cachorros de verdade

Treinador e seus dois cachorros.

No quesito sexual da coisa, Kaz aproveita para explicar que, não, essas pessoas não têm desejos sexuais por cachorros de verdade – aparentemente, essa é uma pergunta que ele ouve com certa frequência. A questão da fantasia, segundo ele, nem sempre tem conotação sexual: “Nós passamos muito tempo juntos em casa, apenas sendo cachorros”, diz ele sobre o comportamento dos cachorros da matilha da qual faz parte – são nove pessoas, no total, mais o companheiro de Kaz, que atua como treinador de todos.

De fato, esse comportamento nos soa estranho em um primeiro momento, mas conhecê-lo é uma maneira de entender que as pessoas são diferentes e têm desejos distintos umas das outras. Ainda que nos cause estranhamento, o melhor a fazer é respeitar as escolhas de cada um.

Além do mais, convenhamos: em menor ou maior grau, todos nós já invejamos a vida de algum animal. Aproveite o espaço dos comentários e nos conte: que bicho você seria, se pudesse?