Em seu livro “Viagem ao Centro da Terra”, o escritor francês Julio Verne imaginou que no interior da Terra havia um mundo paralelo com nuvens, oceanos, ilhas e uma variedade de criaturas pré-históricas e animais inusitados que jamais foram vistos na superfície. Pois, de acordo com Christopher Terrell Nield, professor de biociência da Universidade de Nottingham Trent, na Inglaterra, essa parte dos “animais inusitados” não é mera ficção.

Segundo Christopher, se um dia conseguíssemos perfurar a crosta terrestre — ou encontrar uma caverna profunda o suficiente — para chegar até o manto, seria muito (muito) improvável que encontrássemos dinossauros ou as criaturas fantásticas descritas na história de Verne.

Pode parecer mentira, mas há muita vida nas cavernas

Na verdade, para que possamos ter uma ideia do tipo de animais que poderiam ser descobertos na nossa viagem às profundezas do planeta, o professor diz que o melhor a fazer é vasculhar as entranhas das cavernas em busca de seus “habitantes”. Veja a seguir quais seriam as criaturas vivas que encontraríamos pelo caminho:

1 – Primeiros metros

Os primeiros animais com os quais os viajantes se deparariam provavelmente seriam as aranhas — e não seriam das mais pequenininhas! Segundo Christopher, existe uma espécie, a Meta menardi, que pode passar sua vida inteira sem jamais sair de uma caverna, e os aracnídeos têm essa aparência (ligeiramente assustadora) que você pode conferir a seguir:

Meta menardi

Elas podem ser encontradas a, pelo menos, 30 metros no interior das cavernas, as M. menardi se alimentam de mosquitos que ficam presos em suas teias, assim como de piolhos-de-cobra e tatuzinhos que perambulam pelas paredes do local. Outro candidato seriam os aracnídeos da espécie Heteropoda maxima — que atente pelo intimidador nome popular de aranha-caçadora-gigante. Dê uma olhadinha na aranha:

Um animal conhecido como "aranha-caçadora-gigante" não pode ser muito amigável, né?

A H. maxima se alimenta de grilos e pequenos anfíbios, e pode alcançar até assustadores 30 centímetros de comprimento, o que faz dela a aranha com a maior envergadura de patas de que se tem notícia.

2 – Além dos 200 metros

Os morcegos também são animais que costumam habitar o interior de cavernas, embora eles saiam ao exterior para procurar alimentos. Uma espécie com a qual os viajantes ao centro da Terra poderão tropeçar a partir dos 200 metros de profundidade é a Myotis mystacinus, caracterizada por contar com pelagem abundante e ter essa carinha “simpática” que você pode conferir abaixo:

Seria isso um sorriso?

3 – Penetrando na escuridão

Conforme a viagem vai progredindo, os aventureiros deixarão a luz para trás e penetrarão na total escuridão. Segundo Christopher, a falta de luz implica na ausência de plantas — para produzir alimentos — e, portanto, na inexistência de animais herbívoros. Nessas regiões, é possível encontrar insetos, peixes, anfíbios, crustáceos e pequenos bichinhos que dependem de fungos e bactérias que decompõem qualquer matéria orgânica que chegue até lá para se alimentar. E esses animais, por sua vez, se tornam presas de outras criaturas.

Adentrando nas entranhas da Terra

Algo interessante sobre as profundezas escuras das cavernas é que, como não existe abundância de alimentos, o principal mecanismo é a reciclagem de recursos. Além disso, como não existem muitas espécies de animais que conseguem sobreviver a centenas de metros da superfície, as comunidades que habitam as entranhas da Terra são incrivelmente adaptadas para essas condições extremas.

Conhecidos como troglóbios, a maioria dos animais que vivem nas profundezas não possui pigmentação e, quando têm olhos, eles muitas vezes são atrofiados. Assim, para poder transitar, as criaturas contam com órgãos olfativos supersensíveis ou longas antenas, como é o caso dos besouros da espécie Leptodirus hochenwartii, que você pode ver a seguir:

Leptodirus hochenwartii

Também existem peixes — como o tetra-cego ou Astyanax mexicanus — e salamandras (Eurycea rathbuni e Proteus anguinus) desprovidos de olhos que podem ser encontrados nas profundezas de cavernas.

Eurycea rathbuni

As duas primeiras espécies (A. mexicanus e E. a rathbuni)detectam comida por meio de sensores de pressão, enquanto a terceira (P. anguinus), além de ter o olfato mais aguçado de todos os anfíbios, usa campos elétricos para achar comida. Aliás, segundo Christopher, as salamandras da espécie Proteus anguinus podem chegar a viver mais de cem anos e sobreviver por até uma década sem se alimentar!

4 – Nas entranhas da Terra

Incrivelmente, ainda é possível encontrar organismos vivos além dos mil metros de profundidade! De acordo com Christopher, a maioria dos animais é pequenina e invertebrada, embora os viajantes também possam se deparar com bichinhos um pouco maiores, como os centípedes da espécie Geophilus hadesi. Desprovidos de olhos e batizados em homenagem ao deus grego do submundo, Hades, esses animais foram encontrados a 1,1 mil metros. Veja:

Geophilus hadesi

No entanto, o animal terrestre encontrado na maior profundidade já registrada — ou seja, a incríveis 1.980 metros da entrada da caverna! — foi o artrópode da espécie Plutomurus ortobalaganensis. E, bem diferente das criaturas fantásticas descritas por Julio Verne, esse bichinho é diminuto, desprovido de asas e olhos, e completamente carente de pigmentação. Confira:

Plutomurus ortobalaganensis

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