Você se prepara para uma viagem de férias, na qual a ideia é escolher um destino famoso, fora ou dentro do país e relaxar. Para gastar menos ou em uma condição dentro da sua realidade, você opta pela passagem aérea de classe econômica, mas, no dia da partida, o momento tão esperado se torna um pesadelo ao entrar no avião.

Quem já teve a oportunidade de viajar em voos internacionais, e alguns nacionais, pela classe econômica, sabe o quanto é difícil o tempo passado dentro da aeronave. Os voos em nada se assemelham com os prováveis destinos interessantes que aguardam os passageiros. São longas horas e, entre as reclamações, o desconforto e a falta de espaço entre as poltronas são as principais. Mas por que tudo isso ocorre? Por que a qualidade dos serviços de linhas aéreas, principalmente em voos internacionais, parece ir na contramão da evolução e só declina?

Para esclarecer e dar a opinião sobre o que tem ocorrido com as companhias e suas aeronaves, o site Fast Company entrevistou um integrante desse mercado, com muitos anos de experiência trabalhando em uma das maiores empresas aéreas do mundo. Como pediu para não ser identificado, o site o chama de Sr. X, e assim nós também o faremos por aqui.

Em defesa das companhias aéreas

Que as coisas dentro das aeronaves parecem estar caminhando, a cada dia, para uma realidade pior, já se sabe, e o intuito da entrevista era revelar os podres dos bastidores da indústria aérea internacional. Porém, segundo a própria publicação sugere, o Sr. X acabou adotando uma postura pragmática e levou a conversa por um caminho diferente. Assim, as revelações acabaram se mostrando apenas uma verdadeira explicação do que realmente leva as empresas a agirem dessa forma.

O Fast Company afirma que houve uma alavanca na corrida pelos preços a partir do advento da internet, e a indústria procurou se adequar ao caminho traçado em vez de buscar se reinventar. Segundo o Sr. X, em algum momento houve um desencontro de informações de maneira que os passageiros médios deixaram de entender a economia no mercado de viagens aéreas.

Densidade necessária

Com a batalha de preços de passagens pela internet e os valores caindo, algumas empresas aéreas do mundo acabaram tendo que recorrer a outras formas de compensar a baixa margem com a qual passaram a operar. Para tanto, elas necessitaram aumentar a densidade de clientes por voo, e isso se tornou a saída para conseguirem atingir os rendimentos mínimos para continuar em funcionamento. O problema é que isso faz os passageiros ficarem no limite de aperto durante um voo desses.

A publicação aborda, em especial, a realidade desse segmento nos Estados Unidos, mas em uma situação que afeta muitas outras empresas no mundo. Entretanto, uma observação se faz necessária: há algumas companhias asiáticas, como a Air India, a Singapore Airlines e, em alguns casos, até a Emirates, que recebem subsídios de seus governos para garantir o movimento do turismo, mantendo a qualidade dos serviços. Como há essa diferença, as empresas que operam em baixa buscam, incessantemente, encontrar mais espaços disponíveis na classe econômica dentro de suas aeronaves.

Segundo o Sr. X, o aumento nos combustíveis, por exemplo, é algo que só agravou mais a situação, já que, atualmente, os valores atingidos pelo produto representam 90% do custo operacional das companhias.

A questão do peso

Em contrapartida à necessidade de aumentar o número de passageiros por aeronave e ao aumento do preço do combustível, há a questão do peso que cada avião transporta. Basicamente é assim: cada quilograma a menos que um voo leva representa uma economia de quase US$ 100 em combustível em um ano de operações. Logo, segundo a publicação, é nessa vertente que se deve trabalhar para melhorar a questão para o público.

O Sr. X menciona que se as empresas estão buscando um novo design para os assentos elas precisam atingir duas coisas. “Não é o bastante afirmar que estão criando um assento 20% mais confortável. Tem de ser 20% mais confortável e 20% mais leve também. E essas questões, a propósito, acabam andando na contramão”, afirma.

Outro ponto ocasionado pelo peso é a diferença de custo que uma pessoa representa em relação a outra. Se uma for mais pesada, vai custar mais para a empresa do que uma mais leve. Isso ocasionou uma forma de trabalho diferente por parte da companhia Samoa Air em 2013, quando passou a cobrar por peso. Segundo o CEO da empresa, Chris Langton, na época, essa é a forma mais justa de se viajar de avião. “Não há cobrança por excesso de bagagem, logo o valor é estipulado quilo por quilo”, completou.

Outras situações que podem ser melhoradas

Algumas outras situações são apontadas pelo Sr. X como as que mais irritam os passageiros e que são ajustáveis, baseando-se na falta de justiça encontrada em um voo. Uma delas é a diferença de tratamento oferecida a algumas pessoas com mais milhagens. O entrevistado compara essa realidade a um sistema de castas e cita uma empresa que possui oito zonas que priorizam o embarque conforme a sua “categoria”. “É como se eles falassem que possuem mais sete níveis de pessoas mais importantes do que você”, ressalta.

Ele ainda cita a cobrança de bagagem de mão, na qual os clientes precisam pagar para levar itens no interior da aeronave. Enquanto isso, as pessoas com malas muito maiores, ao despachá-las, não arcam com nenhum valor.

Dois pontos que o Sr. X também ressalta são o assento do meio e a má conduta de algumas pessoas que embarcam primeiro. No caso das poltronas centrais, que sem dúvida são mais desconfortáveis que as dos cantos, elas geralmente são as últimas a serem ocupadas. Assim sendo, elas são destinadas às pessoas que reservam a passagem mais em cima da hora e, estas, justamente por não anteciparem a compra, pagam um valor a mais. Ou seja, os clientes pagam mais caro por um assento com bem menos conforto.

Já sobre as pessoas que embarcam antes, a questão é quando elas se aproveitam e acomodam suas bagagens de mão nos compartimentos maiores, sendo que os equivalentes ao seu assento são outros. O Sr. X condena esse tipo de atitude e diz que “há um lugar especial no inferno para essas pessoas”.

Há exceções, mas que estão longe de ser uma regra

O entrevistado cita o caso de algumas companhias que oferecem um serviço diferente e mais justo: com embarque numerado e não por categoria, com check-in de bagagens gratuito e serviços melhores ao longo do voo. Entretanto, ele diz que as empresas, de maneira geral, continuam agindo da mesma forma e não procuram melhorar o que não está de acordo. “Comparando com uma empresa de tecnologia, elas não analisam o que deu certo e o que não deu em um produto para melhorar em outro. Psicologicamente, acredito eu, isso parece deixá-las ainda menos predispostas a se aprimorarem”, admitiu o Sr. X.

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